Antônio

Lehn

Algumas pessoas tem uma facilidade incrível de negociar com pessoas e lidar com todos para que os negócios fluam naturalmente. Antônio Lehn tem essa característica marcante desde antes de entrar na Albarus, quando trabalhava numa empresa que importava de autopeças chamada Importadora Americana. Iniciou sua trajetória de 30 anos na empresa aos 21 anos, e é muito feliz quando pensa em tudo que ajudou a construir.

Ele ficou sabendo da vaga na Albarus em 1962, através de um vizinho, que comentou que a empresa estava buscando gente para trabalhar no administrativo. Antônio foi até a empresa e já de início conversou com Darci Otero que, na época, era contador da companhia. “Não passei pelo Departamento Pessoal – conversei com o Darci e ele pediu que eu transcrevesse toda a conversa que havíamos tido. Fiz isso, e ele me perguntou quanto eu ganhava na empresa em que estava. A Albarus praticamente dobrou meu salário, era salário de gente grande”, ri ele. Porém, a empresa não tinha vaga para Apontador de fábrica, que era o que ele queria. Ofereceram a ele a vaga de arquivista, e ele aceitou a proposta.

A vaga era nova dentro da empresa, e cabia ao jovem Antônio organizar toda a papelada de uma época pré-informática e criar procedimentos para seu próprio trabalho. “Tive uma boa receptividade, tanto dos colegas como da chefia, e isso me ajudou bastante”, recorda. Durante três anos, ele ficou nesta função, mas outras iam se agregando ao trabalho inicial – por exemplo, Antônio precisava criticar todos os documentos recebidos para serem arquivados. Entre eles, havia muitas notas de débito e crédito, e Antônio encontrava muito erros nestes documentos.

Isso o levaria, então, para a etapa seguinte de sua carreira: de Chefe dos Arquivistas, passaria ao setor da Contabilidade. “Meu cargo era Eslipador, que era a pessoa que recebe toda a documentação da empresa e decide em que conta as coisas vão ser debitadas”, relata. Flávio Möller passou a ser seu chefe e Gilberto Rodrigues, seu subchefe. Antônio lembra de trabalhar no mecanógrafo e, depois, nas máquinas National. Começava assim uma época de muito trabalho: “Eu não tinha hora pra voltar pra casa, e assim foi durante os três anos que fiquei nessa função. Eu revisava toda a mecanografia – todos os erros que eu encontrava, já fazia os estornos e direcionava para as contas certas. Em época de balancete…”, comenta.

Quando a empresa começou a fazer importações foi criado o Departamento de Compras, que ficava sob a supervisão de Vitor Pinto Vieira. Haviam muitos documentos atrelados à este processo – câmbio, despesas correlatas… – e Antônio começou a desenvolver uma espécie de previsão de custos internos de toda a fábrica, por conta própria. A empresa, então, se deu conta de que alguém precisava fazer este trabalho e designou Antônio para ser o Chefe da Seção de Processamento de Importação. Antônio também era responsável por todo o fluxo de caixa das importações.

Com o tempo, agregou-se a esta função também a exportação. Antônio ficava por dentro de toda a movimentação da empresa e lia todos os documentos que caíam na sua mão, já que era responsável por todo o processamento. “Acabei virando uma memória viva dessa época, passava a noite na empresa, lia tudo e mais um pouco, até as atas. Nunca esqueço da data de fundação da Albarus, que li num destes documentos: 10 de julho de 1947”, ri ele.

Nem tudo eram flores – o governo impunha diversos entraves para a importação, nesta época. Um deles era uma programação de importação anual de toda a empresa – era preciso saber exatamente o que ia precisar ser importado por todos os setores da fábrica. Antônio desenvolveu um formulário para ser preenchido pelas chefias de fábrica com estas informações. “Na hora de fazer a guia de importação, aquilo tudo precisava estar dentro da programação, era muito trabalhoso. Eu viajava muito nessa época – Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo. Eu costumo dizer que não trouxe dinheiro pra empresa, mas trouxe menos despesas”, sorri.

Entre as negociações que Antônio fazia com maestria, estavam pedidos de redução ou isenção de impostos, feitos numa época em que tudo era mais complicado. “A gente comprava um computador para a empresa e tinha que ir à Brasília, na Secretaria Especial de Informática, pedir ‘a benção’ pra eles. Quando se falava em peças, máquinas e componentes industriais, o destino era o Rio de Janeiro no Banco do Brasil e nas áreas do sindicato, para atestar se havia similares nacionais ou não para pleitear a isenção de impostos de que se tinha direito”, relata. Para Antônio, essa foi uma época muito gratificante. Seu conhecimento na área era tanho que, quando ele chegava no escritório de Porto Alegre da Cacex (Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil), os funcionários de lá perguntavam quais portarias novas ele havia encontrado no Rio de Janeiro, para ficarem bem informados também.

Foram 15 anos trabalhando nesta função, que lhe renderam muitas boas histórias e um grande orgulho: um elogio de Ennio Moura Valle. “Numa dessas jantas dos veteranos ele disse à minha mulher que fui o melhor funcionário dele”, relata, orgulhoso. Antônio passou também a ser Chefe do Departamento de Importação e Exportação de Processamento, que virou um departamento. Esse bom relacionamento que Antônio tinha nos órgãos governamentais em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo ajudou muito a empresa a atravessar a década de 80, quando o governo impunha bastante entraves à importação.

Depois disso, Antônio passou a responder diretamente para os Vice-Presidentes da empresa: Tito Lívio Goton, Enio Moura Valle, Vitor Vieira e Paulo Regner. Nesta época, Antônio conta que acabou ficando sozinho, no Departamento de Processamento, em 1985. Sua missão? Resolver todo e qualquer problema referente à importação e exportação da empresa. “Era só problema. Acabei ficando conhecido como ‘o homem das causas impossíveis’. Até cobrança eu fazia. Resolvia tudo na conversa, com elasticidade e compreensão, além de muito jogo de cintura”, afirma.

Um de seus orgulhos é ter dado muita oportunidade para os estagiários que passaram pelo seu departamento, o que lhe garantiu muitas menções honrosas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos pelo acompanhamento e encorajamento destes jovens.

Antônio encerrou sua carreira na empresa em 1992. “Eu sempre digo aos meus filhos: eu criei eles dentro da Albarus. Eles nasceram e eu já estava lá dentro. Eles cresceram, casaram e eu ainda estava lá. Eu nunca “pisei” em ninguém. Nunca fiz ninguém de trampolim pra subir pra qualquer cargo. Ficava doente quando meu chefe dizia que precisava demitir alguém. Do portão para dentro da empresa, eu era da Albarus”, relata.

Antônio é casado com Vilma há 52 anos, e tem 5 filhos: Airton, Adilson, Cláudia, Adriano e Lisiane. Eles lhe deram nove netos: Maitê, Lucas, Diego, João, Leonardo, Matheus, Carolina e a caçula Giúlia, que acompanhou o avô durante toda a entrevista.

Sobre todos os seus anos de empresa, diz: “a amizade sempre prevaleceu. A alegria, também. Eu procurava nunca deixar qualquer problema pra resolver no outro dia. Tive grandes momentos dentro da empresa e muitas histórias para contar. Isso vale muito”, conclui.

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“Eu sempre digo aos meus filhos: eu criei eles dentro da Albarus. Eles nasceram e eu já estava lá dentro. Eles cresceram, casaram e eu ainda estava lá. Eu nunca pisei em ninguém. Nunca fiz ninguém de trampolim pra subir pra qualquer cargo. Ficava doente quando meu chefe dizia que precisava demitir alguém. Do portão para dentro da empresa, eu era da Albarus.”

Antônio Lehn