{"id":33134,"date":"2019-03-20T08:50:23","date_gmt":"2019-03-20T11:50:23","guid":{"rendered":"https:\/\/dana.com.br\/canaldana\/?p=33134"},"modified":"2019-03-20T08:50:23","modified_gmt":"2019-03-20T11:50:23","slug":"erros-da-ford-sao-alerta-para-o-futuro-da-industria-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dana.com.br\/canaldana\/2019\/03\/20\/erros-da-ford-sao-alerta-para-o-futuro-da-industria-brasileira\/","title":{"rendered":"Erros da Ford s\u00e3o alerta para o futuro da ind\u00fastria brasileira"},"content":{"rendered":"<p><em>Rede Brasil Atual <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os trabalhadores na Ford de S\u00e3o Bernardo do Campo, no ABC paulista, fazem na manh\u00e3 desta ter\u00e7a-feira (19) mais uma assembleia para discutir os pr\u00f3ximos passos da mobiliza\u00e7\u00e3o. Hoje se completa um m\u00eas desde que a montadora anunciou o fechamento da f\u00e1brica. Desde ent\u00e3o, o Sindicato dos Metal\u00fargicos do ABC vem buscando alternativas para manter a unidade em funcionamento e preservar os mais de 4 mil postos de trabalho. A expectativa agora \u00e9 de iniciar conversas com a empresa sobre poss\u00edveis interessados na compra da f\u00e1brica, depois que a dire\u00e7\u00e3o mundial da Ford confirmou a inten\u00e7\u00e3o de desativar a unidade, durante reuni\u00e3o no \u00faltimo dia 7, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o foi frustrante para os trabalhadores. O ex-presidente do sindicato Rafael Marques conta que um dos verbos mais falados pelos executivos foi para demonstrar que todos &#8220;apreciavam&#8221; os esfor\u00e7os e o profissionalismo dos metal\u00fargicos para manter a f\u00e1brica. Mas, no geral, as conversas tiveram tom frio. &#8220;N\u00e3o chegamos a encontrar um ambiente de negocia\u00e7\u00e3o&#8221;, relata Rafael, que hoje preside o Instituto Trabalho, Ind\u00fastria e Desenvolvimento (TID), instalado ao lado da antiga f\u00e1brica da Rolls-Royce, tamb\u00e9m na regi\u00e3o do ABC, a menos de 10 quil\u00f4metros da pr\u00f3pria Ford.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para o metal\u00fargico, funcion\u00e1rio justamente da Ford de S\u00e3o Bernardo, o caso da montadora escancara uma sucess\u00e3o de erros estrat\u00e9gicos cometidos pela empresa, muitos dos quais apontados h\u00e1 tempos pelo sindicato, que colaborou ativamente para acordos de reestrutura\u00e7\u00e3o em outras ocasi\u00f5es. Rafael acredita que a unidade do ABC poderia se tornar uma esp\u00e9cie de &#8220;f\u00e1brica modelo&#8221; para toda a regi\u00e3o, com desenvolvimento de tecnologia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 anos os trabalhadores cobram a Ford sobre o desenvolvimento de novos produtos no ABC, que no caso de autom\u00f3veis tem apenas um modelo do Fiesta. A expectativa era de que a produ\u00e7\u00e3o de caminh\u00f5es, que costuma ser lucrativa, desse f\u00f4lego para que essa situa\u00e7\u00e3o se definisse antes do vencimento de acordo firmado em 2017, no pr\u00f3ximo m\u00eas de novembro. Mas a empresa decidiu fechar tudo, inclusive a \u00e1rea de caminh\u00f5es. &#8220;N\u00e3o digerimos, os trabalhadores n\u00e3o digeriram, mesmo no setor administrativo. Foi um baque&#8221;, diz Rafael, para quem a situa\u00e7\u00e3o vivida em S\u00e3o Bernardo serve de alerta para todo o pa\u00eds, que precisa discutir medidas efetivas de pol\u00edtica industrial, se n\u00e3o quiser o problema se repetindo com outras empresas de grande porte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O desafio agora \u00e9 manter a regi\u00e3o do ABC &#8220;forte industrialmente&#8221;, garantindo que a \u00e1rea de 1 milh\u00e3o de metros quadrados onde se localiza a Ford continue destinada a atividades industriais. Para isso, \u00e9 preciso envolver as autoridades, o poder p\u00fablico, sem esconder as dificuldades, &#8220;para encarar algum desfecho que queremos que seja o melhor poss\u00edvel para os trabalhadores&#8221;, mas tamb\u00e9m sem perder a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, Rafael fala sobre as estrat\u00e9gias ruins da Ford, as iniciativas dos sindicalistas, a reuni\u00e3o nos Estados Unidos e a necessidade de implementar uma pol\u00edtica industrial no pa\u00eds e se preparar para o futuro, em um momento de transi\u00e7\u00e3o de modelos produtivos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Transi\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No caso do Brasil, a Ford simboliza de maneira bem did\u00e1tica este momento de tecnologias novas que v\u00e3o alterar rela\u00e7\u00f5es humanas, pol\u00edticas, econ\u00f4micas, estrat\u00e9gicas industriais. \u00c9 uma tecnologia que est\u00e1 ganhando maturidade, for\u00e7a, sendo testada de forma cada vez mais robusta. N\u00e3o s\u00f3 no sistema produtivo, mas na concep\u00e7\u00e3o do que as empresas v\u00e3o entregar em termos de produto para a sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O carro \u00e9 um elemento que vai mudar radicalmente e n\u00e3o acho que v\u00e1 demorar muito. Um carro hiper-conectado, com todos os itens de conectividade que podem ser imaginados. Um carro que tenha reconhecimento facial, do olho, que te alerta em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es de risco, de tr\u00e2nsito, enfim, um carro inteligente, que vai dando ao usu\u00e1rio cada vez menos depend\u00eancia humana e mais autonomia da tecnologia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso \u00e9 algo que j\u00e1 est\u00e1 no olhar das empresas. Isso em algum momento vai ser a tecnologia dominante. S\u00f3 que estamos vivendo esse momento de transi\u00e7\u00e3o. As grandes empresas est\u00e3o come\u00e7ando a tomar decis\u00f5es estrat\u00e9gicas agora para migrar uma parte das suas opera\u00e7\u00f5es para executar esse tipo de tecnologia, oferecer o quanto antes esse produto ao mercado, e isso transforma as f\u00e1bricas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em algumas partes, de economias emergentes, pa\u00edses mais pobres, o motor de combust\u00e3o vai continuar por um tempo, acho que algumas d\u00e9cadas. Como ainda tem reservas de petr\u00f3leo importantes no mundo, a oferta de combust\u00edvel f\u00f3ssil ainda \u00e9 abundante, essas coisas v\u00e3o caminhar em paralelo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas v\u00e1rias empresas tomam as decis\u00f5es agora, at\u00e9 porque essas novas tecnologias exigem investimentos pesados. Alguns estados norte-americanos s\u00e3o onde o carro est\u00e1 sendo testado. Voc\u00ea tem vias certificadas para o carro aut\u00f4nomo circular, eles v\u00e3o testando a tecnologia. Ao longo do tempo, vai ser testado em cidades com bastante congestionamento&#8230; Essas medidas levam a esse cen\u00e1rio. No caso da Ford, a uma primeira investida, n\u00e3o acho que \u00e9 a \u00fanica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o apenas a Ford<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tanto a Ford como outras marcas come\u00e7am a reestruturar globalmente seus neg\u00f3cios. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o que o movimento sindical vai ter de se deparar, porque isso afetar\u00e1 pa\u00edses onde as multinacionais operam. De qualquer ramo, n\u00e3o s\u00f3 do metal\u00fargico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tem v\u00e1rias estrat\u00e9gias, tem muita fus\u00e3o de empresa. No caso do setor automotivo, tem essa colabora\u00e7\u00e3o entre Volks e Ford, que a princ\u00edpio \u00e9 para encarar o custeio dos investimentos nas tecnologias novas, que \u00e9 caro. E as empresas perderam, em termos de valor. Voc\u00ea pega uma Amazon, Apple, Microsoft, elas valem muito mais que as maiores montadoras do mundo, em termos de capital. Ent\u00e3o, isso tudo altera muito a estrat\u00e9gia das empresas e vai em algum momento acabar rebatendo a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, para o bem ou para o mal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na caso da Ford, para o mal. Porque eles poderiam, no caso de S\u00e3o Bernardo, que \u00e9 uma planta em dia com o que tem no Brasil em termos de tecnologia, voc\u00ea tem um conjunto de trabalhadores com n\u00edvel de qualifica\u00e7\u00e3o bom, que pode melhorar, uma rede de universidades integrada, que conhece o sistema de produ\u00e7\u00e3o, as necessidades tecnol\u00f3gicas do setor, que poderiam transformar S\u00e3o Bernardo em uma f\u00e1brica modelo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds polo da Am\u00e9rica do Sul, a nossa f\u00e1brica poderia come\u00e7ar a ser, at\u00e9 no Hemisf\u00e9rio Sul, o polo de desenvolvimento dessas tecnologias, automotiva e de produ\u00e7\u00e3o, para olhar daqui a 10 anos, 15 anos. Na ida aos Estados Unidos, colocamos isso como um dos itens de transforma\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Bernardo. Infelizmente, isso n\u00e3o foi avaliado pela Ford.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Erros estrat\u00e9gicos<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na reuni\u00e3o (dos representantes dos trabalhadores com a c\u00fapula da empresa, nos EUA), eles admitiram que v\u00e1rios erros foram cometidos aqui na regi\u00e3o, especialmente no Brasil. N\u00e3o nos disseram quais, mas disseram: &#8220;V\u00e1rios erros acumulados nos \u00faltimos anos&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Voc\u00ea come\u00e7a a pegar coisas que a gente disse para a empresa, s\u00e3o d\u00e9cadas de problemas, de escolhas estrat\u00e9gicas, recursos que foram aplicados no Brasil. Claro que teve momentos importantes, retorno bom, com lucro, remessas \u00e0 matriz. Evidentemente, com o mercado crescendo, a economia crescendo, o pa\u00eds distribuindo renda e as pessoas com apetite de consumo \u2013 que foi o que ocorreu no governo Lula e os primeiros anos de governo Dilma \u2013, isso foi importante para todos n\u00f3s e mascarou um pouco dos erros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Evidentemente que os trabalhadores na f\u00e1brica n\u00e3o t\u00eam nenhuma responsabilidade pelo que vem acontecendo nos \u00faltimos anos. Mas o sindicato sempre levantou uma quest\u00e3o para a empresa: sobre os carros produzidos aqui, a melhor estrat\u00e9gia \u00e9 produzir as pe\u00e7as no Brasil, ou no m\u00e1ximo na regi\u00e3o, no Mercosul, por conta de blindar impactos externos, de mudan\u00e7a da moeda em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar. Sempre dissemos isso para a empresa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Fiesta \u00e9 uma plataforma global, e eles mantiveram os fornecedores globais para abastecer a produ\u00e7\u00e3o local, mesmo tendo a oportunidade de desenvolver fornecedores aqui, rapidamente, o que daria para ter mais localiza\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as aqui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Era 1.7 (cota\u00e7\u00e3o do real em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar) quando o projeto do New Fiesta foi concebido, bateu em 4. O projeto \u00e9 de 2012, o carro lan\u00e7ado em 2013, em 2014 o c\u00e2mbio foi a 4 d\u00f3lares. Ent\u00e3o, numa virada de ano, o custo de pe\u00e7as do carro dobrou. E a\u00ed n\u00e3o tem plano, a curva (de desempenho de mercado) que eles apresentaram para n\u00f3s foi totalmente inviabilizada. A margem (de lucro operacional) do carro foi queimada ali. Isso foi um erro fundamental do \u00faltimo per\u00edodo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cama\u00e7ari<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi uma f\u00e1brica que eles projetaram de uma maneira que n\u00e3o se sustenta. Cama\u00e7ari tem quase 20 anos de vida e ainda precisa dos incentivos fiscais para ser competitiva. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 competitiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o conseguiu evoluir ao ponto (de ser competitiva), pelos fatores internos de produ\u00e7\u00e3o. Todos os custos, Eles n\u00e3o conseguiram ir atenuando os custos de produ\u00e7\u00e3o. A estrat\u00e9gia que eles adotaram l\u00e1, de todo mundo ter o mesmo padr\u00e3o de sal\u00e1rio, todas as suas redes de fornecedores, isso se mostrou impratic\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ela j\u00e1 deveria ter se libertado disso mas, com os incentivos, a f\u00e1brica se mant\u00e9m. Mas at\u00e9 quando vai ter? Ent\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio que os companheiros da Bahia se apropriem desse debate. N\u00e3o podemos ter em 2025 o fim do incentivo e a f\u00e1brica dizer &#8220;n\u00e3o fico aqui tamb\u00e9m&#8221;. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a Ford. \u00c9 o sindicato, o governo&#8230; \u00c9 um debate importante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Produ\u00e7\u00e3o de caminh\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acho que a luta de S\u00e3o Bernardo d\u00e1 esse alerta. N\u00e3o queremos que a Ford deixe o Brasil, queremos que fique aqui, inclusive em S\u00e3o Bernardo. A esperan\u00e7a segue, por mais dif\u00edcil que seja. O pr\u00f3prio EcoSport, ou eles reformulam, ou v\u00e3o perdendo mercado. O projeto tem problemas comparado com seus principais concorrentes. Agora, caminh\u00e3o \u00e9 acerto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O erro da Ford \u00e9 essa decis\u00e3o agora, de parar de produzir. V\u00e1rios anos a opera\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis fecha no vermelho, mas a de caminh\u00e3o fecha no azul. Evidentemente que a escala de caminh\u00e3o \u00e9 menor. \u00c0s vezes, os problemas que a Ford encontrou na produ\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis tirou um pouco da for\u00e7a dos lucros em caminh\u00f5es, mas geralmente caminh\u00f5es fecha o ano com lucro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o atrapalha a Ford, pelo contr\u00e1rio. Mant\u00e9m a marca com vitalidade em segmentos que n\u00e3o s\u00f3 o de carros de passeio, mas na infraestrutura, em empresas log\u00edsticas, prefeituras, mant\u00e9m uma marca mais ampla com a produ\u00e7\u00e3o de caminh\u00f5es aqui. E quando (a produ\u00e7\u00e3o) veio (da unidade) do Ipiranga pra c\u00e1 (em S\u00e3o Bernardo) veio uma f\u00e1brica enxuta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tem um problema, que \u00e9 a depend\u00eancia dos fornecedores, principalmente de motores de transmiss\u00e3o, que precisa ser melhor equacionado. O problema \u00e9 a escala. N\u00f3s batemos 40 mil em 2011, 2010, e vai para 12.500 este ano. Mas chegou a 7 mil em 2015.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O mercado vem se recuperando, o setor desmamou da depend\u00eancia do Finame (linha de financiamento do BNDES), est\u00e1 subindo a escala gradativamente, e agora abandona a opera\u00e7\u00e3o? A parceria na Turquia poderia ser implementada aqui, mas nem isso quiseram manter aqui. Ent\u00e3o, n\u00e3o deu pra entender a estrat\u00e9gia. Essa parceria com o grupo turco no Brasil, da mesma maneira, com investimentos casados, compartilhados, engenharia, funcionaria por um bom per\u00edodo. E ao longo da uma d\u00e9cada a Ford mais ganharia em termos de rentabilidade do que perderia, al\u00e9m de manter a marca forte nesses segmentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 incompreens\u00edvel eles terem feito isso. \u00c9 verdade que globalmente eles abandonaram. Mas por que manteve no Brasil e na Turquia? Porque d\u00e1 dinheiro. N\u00e3o d\u00e1 pra compreender, e dissemos isso a eles. E caminh\u00f5es nos daria f\u00f4lego, ao longo do tempo, de achar um produto compat\u00edvel pra S\u00e3o Bernardo, um produto vencedor, ou a pr\u00f3pria convers\u00e3o em uma f\u00e1brica de engenharia e desenvolvimento dos carros futuros na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas a f\u00e1brica n\u00e3o conseguiu captar essa condi\u00e7\u00e3o. A gente percebe a dire\u00e7\u00e3o atual \u2013 o atual presidente veio da ind\u00fastria moveleira \u2013, e aparentemente n\u00e3o est\u00e1 indo bem. N\u00f3s fomos l\u00e1 e vimos uma dire\u00e7\u00e3o pressionada, at\u00e9 por erros de como se relacionar com o mercado. Eles anunciaram 11 bilh\u00f5es (de d\u00f3lares) de reestrutura\u00e7\u00e3o antes de ter o plano na m\u00e3o. O mercado viu com maus olhos. N\u00f3s est\u00e1vamos nos Estados Unidos no per\u00edodo do carnaval, a a\u00e7\u00e3o da Ford estava 8,78 (d\u00f3lares). Na semana passada, estava 8,48.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Agora, est\u00e3o anunciando o plano gradativamente e as a\u00e7\u00f5es n\u00e3o reagiram. Estamos pagando o pre\u00e7o pela escolha de um grupo que talvez n\u00e3o esteja com a melhor proposta. Ent\u00e3o, a gente n\u00e3o tinha que estar pagando esse pre\u00e7o. Eu n\u00e3o vejo chance nenhuma de a Ford reagir em termos acion\u00e1rios parando a produ\u00e7\u00e3o de caminh\u00f5es no Brasil. N\u00e3o vai significar nada para a f\u00e1brica em rela\u00e7\u00e3o aos seus acionistas e vai perder o potencial de ter um lucro que para o Brasil \u00e9 relevante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Carro da China seria compat\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu fui no Sal\u00e3o (do Autom\u00f3vel, em novembro do ano passado, quando a empresa exibiu o Territory, utilit\u00e1rio fabricado na China), vi o carro, achei interessante. Mas n\u00e3o est\u00e3o nos dando tempo para observar se seria uma alternativa boa de produto em S\u00e3o Bernardo, caso a escolha fosse continuar com os carros convencionais, tecnologia convencional. Nem eles est\u00e3o dando um tempo se esse carro seria compat\u00edvel com o mercado brasileiro e com a f\u00e1brica de S\u00e3o Bernardo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Debate sobre reestrutura\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 2017, n\u00f3s fizemos assembleia com os trabalhadores, aprovamos que entrar\u00edamos em processo de negocia\u00e7\u00e3o, que seria muito dif\u00edcil, a f\u00e1brica teria exig\u00eancia de mudan\u00e7as em alguns fatores que influenciam custos, tabela salarial, adicionais, jornada. Foi um ano em que aparentemente n\u00f3s ter\u00edamos investimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Iniciamos as conversas, eles paralisaram exatamente na mudan\u00e7a da dire\u00e7\u00e3o global. Nos preocupou. O que foi dito era que precisamos olhar melhor o Brasil. De fato, do ponto de vista pol\u00edtico, o Brasil viveu momentos muitos dif\u00edceis no \u00faltimo per\u00edodo, que fizeram as montadoras segurar investimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Volks segurou, est\u00e1 soltando agora. A Mercedes segurou. A Ford, quando anunciou que estava segurando, a gente imaginou que estava fazendo o que as outras fizeram, s\u00f3 que as outras fizeram antes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que nos preocupava era a perda de volume do Fiesta. E uma coisa tamb\u00e9m que nos atrapalhou \u00e9 que o Fiesta vinha caindo no mercado brasileiro, mas vinha mantendo no mercado argentino. Ent\u00e3o, no ano de 2017 a produ\u00e7\u00e3o do Fiesta caiu, mas o que segurou foi o mercado argentino. Depois teve a crise cambial de l\u00e1, em 2018, a\u00ed caiu muito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nossa preocupa\u00e7\u00e3o ficou totalmente voltada para a opera\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis. O estimado este ano \u00e9 19, 18 mil carros. Mas isso faz em tr\u00eas meses de produ\u00e7\u00e3o. Encerramos o ano passado com muita preocupa\u00e7\u00e3o e iniciamos este ano com muita mobiliza\u00e7\u00e3o, para pressionar a dire\u00e7\u00e3o da empresa a nos dar uma resposta sobre qual vai ser o rumo dessa f\u00e1brica e os investimentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas (a companhia) trouxe o caminh\u00e3o para o centro de discuss\u00e3o, e a\u00ed n\u00e3o d\u00e1 para compreender. Mexer com caminh\u00e3o no Brasil n\u00e3o traz nenhum impacto global relevante, mexer com isso para qu\u00ea? N\u00e3o havia desmobiliza\u00e7\u00e3o em caso de caminh\u00e3o. Eles mantiveram tudo em ordem para n\u00e3o depreciar a opera\u00e7\u00e3o. Tinha sim car\u00eancias, mas que n\u00e3o tiravam da Ford a capacidade de competir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Clima na reuni\u00e3o nos Estados Unidos<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma reuni\u00e3o fria. A gente ouviu muito a palavra appreciate. &#8220;Aprecio a preocupa\u00e7\u00e3o de voc\u00eas, a proposta de voc\u00eas.&#8221; Apreciaram tudo que n\u00f3s levamos l\u00e1: nosso empenho, nosso profissionalismo, nossa paix\u00e3o pela Ford aqui. Mas era uma reuni\u00e3o proforma, fria. N\u00e3o chegamos a encontrar um ambiente de negocia\u00e7\u00e3o. Fomos l\u00e1 para presta\u00e7\u00e3o de contas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Poss\u00edveis interessados na compra<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estamos reivindicando uma reuni\u00e3o com o presidente (Lyle Watters, respons\u00e1vel pela Ford na Am\u00e9rica do Sul). Tem essa conversa com o Doria, vamos repetir essa reuni\u00e3o, porque quem abriu essa discuss\u00e3o publicamente foi o governo do estado. Ent\u00e3o, queremos conversar com o governador sobre isso, mas precisamos conversar com o executivo aqui, que est\u00e1 recebendo interessados, queremos detalhes sobre isso, porque o sindicato pode mais uma vez mostrar sua import\u00e2ncia, a seriedade, o compromisso de viabilizar qualquer projeto pra c\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nestes 20 anos, a produ\u00e7\u00e3o de caminh\u00f5es veio para c\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o de um acordo entre n\u00f3s e a empresa, na greve de 1999. Os dois carros que trouxeram pra c\u00e1 foi tudo empenho da pauta do sindicato, nunca foi uma coisa t\u00e3o autom\u00e1tica por parte da empresa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vamos continuar exercendo esse compromisso com a regi\u00e3o, com os trabalhadores, de manter essa opera\u00e7\u00e3o aqui. Se essa \u00e9 uma das possibilidades, n\u00f3s vamos fazer a nossa parte. Eu acho que uma das coisas que podem dar mais for\u00e7a \u00e0 nossa f\u00e1brica \u00e9 a mesma estrat\u00e9gia que a GM fez (a montadora chegou a falar em sair do pa\u00eds, mas negociou um acordo de reestrutura\u00e7\u00e3o com os metal\u00fargicos de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, no interior paulista).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A GM conseguiu medidas por parte do governo estadual, conseguiu uma redu\u00e7\u00e3o de custos por parte de fornecedores, da rede de concession\u00e1rias. Acho que o plano da GM cabe na Ford, de conseguir uma certa coopera\u00e7\u00e3o de todo mundo que est\u00e1 ligado ao neg\u00f3cio, todo mundo dar um pouco de cota para as coisas continuarem funcionando aqui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Ford aparentemente n\u00e3o quer fazer isso, jogou a toalha. N\u00e3o d\u00e1 pra entender. O que a GM fez \u00e9 algo muito poss\u00edvel que a Ford repetisse aqui. Mas nem isso, nem essa luta ela tentou fazer. Mas algum arranjo dessa natureza \u00e9 um caminho para essa atividade continuar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Papel do Estado<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No caso da Fran\u00e7a, que tamb\u00e9m teve fechamento de uma f\u00e1brica de motores, o Estado participou da negocia\u00e7\u00e3o e garantiu que aquela \u00e1rea continuar\u00e1 sendo destinada a atividades industriais. Porque isso \u00e9 sempre importante para uma regi\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O ABC est\u00e1 numa encruzilhada. Porque est\u00e1 totalmente voltado para o setor automotivo e algumas outras franjas, al\u00e9m do parque petroqu\u00edmico. O ABC n\u00e3o pode abrir m\u00e3o disso sob pena de n\u00e3o conseguir rapidamente se reinventar. Ent\u00e3o, a regi\u00e3o, o governador, o prefeito local, t\u00eam de olhar para isso, porque \u00e9 relevante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se uma f\u00e1brica de motores, que deve ser bem menor que a nossa, \u00e9 relevante para o governo franc\u00eas ter se envolvido e atuado, a f\u00e1brica (de S\u00e3o Bernardo) \u00e9 mais importante at\u00e9, para o estado de S\u00e3o Paulo. Tem de se envolver. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma hist\u00f3ria, mas todo o potencial que isso gerou para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tecnologias novas, modelos novos, acordos inovadores. O primeiro acordo de banco de horas nasceu nessa f\u00e1brica. A estrutura\u00e7\u00e3o do lay-off (suspens\u00e3o do contrato de trabalho) nasceu nessa planta, em 1999. N\u00e3o d\u00e1 para aceitar uma posi\u00e7\u00e3o como a do Carlos Costa (secret\u00e1rio de Produtividade do Minist\u00e9rio da Economia): se quiser fechar, fecha. \u00e9 uma decis\u00e3o perfeitamente aceit\u00e1vel do ponto de vista privado. N\u00e3o \u00e9 assim. O Brasil est\u00e1 perdendo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E tem essa parte que \u00e9 uma pol\u00eamica, que ela sempre foi muito bem tratada aqui atrav\u00e9s de incentivos tribut\u00e1rios. A Ford sempre foi bem tratada na hist\u00f3ria brasileira, n\u00e3o pode agora tamb\u00e9m&#8230; O Estado brasileiro tem direito de exercer poder, tem de exercer esse direito, n\u00e3o pode ficar alheio. (Posteriormente, o secret\u00e1rio falou sobre &#8220;responsabilidade social&#8221; da empresa.)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Flexibiliza\u00e7\u00e3o trabalhista<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es existentes hoje nas empresas n\u00e3o s\u00e3o as existentes 10 anos atr\u00e1s. As coisas foram sendo reformuladas. Sal\u00e1rios sempre foram preservados, procurando alternativas. Dada a capacidade que as empresas t\u00eam de chantagear \u2013 e n\u00e3o podemos negar que isso afeta o pr\u00f3prio modelo sindical \u2013, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o conjuntural dif\u00edcil, que a gente precisa se deparar e n\u00e3o correr do desafio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos negar que o rumo do ponto de vista pol\u00edtico que o Brasil adotou desde o impeachment da Dilma, o Estado adotou esse rumo, isso empodera as empresas. A &#8220;reforma&#8221; trabalhista do jeito que foi, sem olhar o futuro do trabalho, mas olhando o trabalho de uma maneira assim: &#8220;temos de limpar direitos e isso vai ter uma contrapartida de melhorar a renda&#8221;, isso n\u00e3o vai acontecer no Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Temos uma elite bastante gananciosa e mesquinha&#8230; O que eles est\u00e3o tentando fazer, na verdade, \u00e9 acabar com o movimento sindical para deixar as pessoas numa condi\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o moderna. Isso que se passa na cabe\u00e7a, infelizmente, de uma boa parte do empresariado brasileiro, no caso do setor industrial, que em vez de direcionar seu lucro para retorno das suas f\u00e1bricas, ele ganha dinheiro e vai comprar cavalo, um animal premiado, uma fazenda, vai fabricar vinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O mercado financeiro no Brasil oferece tantas vantagens para que a pessoa, em vez de reinvestir e melhorar seu processo, prefira migrar para o mercado financeiro. O Brasil tem problemas ser\u00edssimos em rela\u00e7\u00e3o a isso, que v\u00eam esvaziando o apetite do empresariado industrial de investir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 uma mentira dizer que as f\u00e1bricas brasileiras s\u00e3o t\u00e3o produtivas quanto as do mundo afora. Algumas sim, mas a maioria parou no tempo, porque o cara preferiu ficar rico e deixar a f\u00e1brica pobre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, tem medidas a serem tomadas no Brasil, ou vamos ficar um pa\u00eds totalmente dependente da ind\u00fastria internacional e vamos ser cada vez menos independentes do ponto de vista tecnol\u00f3gico, produtivo. Interrompe qualquer capacidade de o pa\u00eds tornar sua popula\u00e7\u00e3o cada vez mais rica, deixar de ser um pa\u00eds de renda m\u00e9dia e ser de renda alta. Esse movimento (de ascens\u00e3o social) voc\u00ea interrompe completamente com essa estrat\u00e9gia, de deixar de ser um pa\u00eds com uma ind\u00fastria forte, competitiva, que tenha tecnologia, que se atualize em rela\u00e7\u00e3o ao mundo, que proponha solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao perder esse n\u00facleo, vira um pa\u00eds totalmente subserviente, sem soberania. E o caso da Ford nos permite colocar tudo isso na pauta. O assunto Ford ultrapassa os muros da empresa e coloca em xeque, inclusive, o modelo de desenvolvimento que o Brasil quer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pol\u00edtica industrial<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa onda liberal que o Brasil est\u00e1 passando, n\u00e3o tem uma compreens\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. O Temer foi uma anomalia, um golpe mesmo. Ali\u00e1s, a pauta vencedora em 2014 (com a elei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff) n\u00e3o foi implementada. E agora, sem consci\u00eancia clara dos objetivos do Bolsonaro, seus grupos apoiadores t\u00eam uma agenda descolada do que se deve fazer no pa\u00eds para a gente revitalizar nossa ind\u00fastria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Evidentemente, tem de ter um debate sobre os rumos que o Brasil vai adotar em termos de desenvolvimento. Mas os caras est\u00e3o fazendo tudo de maneira atropelada. Esses 600 itens industriais que eles pedem isen\u00e7\u00e3o total do imposto de importa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi devidamente conversado, trabalhado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se faz sem dimensionar os impactos, numa tacada s\u00f3. Nenhum pa\u00eds faz isso de maneira atabalhoada como estamos fazendo. No governo Collor n\u00f3s perdemos densidade industrial, especialmente porque nossas grandes ind\u00fastrias terminaram se desnacionalizando. Agora vem essa paulada que eles est\u00e3o dando, achando que isso vai abrir o mercado, vai atrair tecnologias novas, vai melhorar a efici\u00eancia do nosso sistema produtivo&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 controv\u00e9rsias, porque eles est\u00e3o fazendo isso num momento em que o mundo est\u00e1 fechando. Estou abrindo sem a chance de poder entrar em mercados com a minha manufatura, entendeu? Onde vai ter o emprego no Brasil? O que vai virar este pa\u00eds em termos de emprego e renda? Ent\u00e3o, est\u00e1 se cumprindo uma agenda em que a popula\u00e7\u00e3o vai sofrer muito. Isso \u00e9 empobrecimento na veia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um dos poucos agentes institucionais no Brasil capazes de tentar reverter essa onda, manter a chance de ter sal\u00e1rios e direitos valorizados, e fazer press\u00e3o para que a renda se distribua, que \u00e9 o movimento sindical, est\u00e3o atacando pelo outro lado. Al\u00e9m de toda essa estrat\u00e9gia equivocada \u2013 falta um debate mais claro e o momento internacional n\u00e3o indica que \u00e9 uma boa medida \u2013, voc\u00ea ainda tenta enfraquecer as institui\u00e7\u00f5es que fazem o contraponto para n\u00e3o acontecerem os abusos que s\u00e3o da natureza do capitalismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Querem diminuir a capacidade dos trabalhadores de se defender, de propor, reagir e melhorar de vida. \u00c9 um absurdo, um governo realmente espinhoso para os trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Interlocu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Parece que \u00e9 um governo que n\u00e3o tem sensibilidade, mas n\u00e3o vamos procur\u00e1-lo. \u00c9 um teste nosso para esse governo. Eles v\u00e3o deixar acontecer mesmo? Vai ser assim? N\u00f3s precisamos provocar o governo a tomar medidas. Se o governo ficar alheio, \u00e9 um perigo. E n\u00e3o \u00e9 acabar com incentivo na Bahia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Ford tem de estar l\u00e1, n\u00e3o \u00e9 isso. Tem de exercer press\u00e3o sobre a dire\u00e7\u00e3o, a Ford tem de sentir o peso do Estado brasileiro. Mas precisa ter motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Vai ser um sinal positivo se o governo fizer isso. E o governo \u00e9 quase um s\u00f3cio da Ford, com os incentivos. Ent\u00e3o, as coisas precisam ser bem discutidas. E \u00e9 um sinal para os outros: n\u00e3o fa\u00e7am igual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como manter o \u00e2nimo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00f3s vamos colocando aos trabalhadores para militar sobre a causa. \u00c9 uma forma de a gente manter o pessoal com alguma esperan\u00e7a, com vitalidade. O sindicato tem de estar no comando, dar esperan\u00e7a, mostrar que est\u00e1 com o pessoal, que vai encaminhar junto \u00e0 empresa tudo o que for poss\u00edvel, uma sa\u00edda que a gente consiga prioritariamente ter a continuidade aqui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 preciso manter o pessoal muito informado, muito junto. L\u00e1 dentro da f\u00e1brica tem uma solidariedade interna muito boa entre os trabalhadores, entre a milit\u00e2ncia, que d\u00e1 muita for\u00e7a aos dirigentes dos sindicatos, dando os caminhos que a gente pode pensar em um momento como este.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acho que temos de pensar em v\u00e1rios planos. Estamos pedindo ao pessoal que ajude o sindicato a pensar as sa\u00eddas, ajude a pensar. E a gente quer manter essa hist\u00f3ria viva. A nossa luta \u00e9 manter a hist\u00f3ria dessa f\u00e1brica, lutas passadas, vidas pessoais, tem gente que casou e se separou l\u00e1 dentro, muita gente que passou a vida l\u00e1, se aposentou ou est\u00e1 l\u00e1 at\u00e9 hoje, gente nova, que acabou de casar. \u00c9 muita coisa que est\u00e1 mexendo com a cabe\u00e7a das pessoas. (Rede Brasil Atual\/Vitor Nuzzi)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rede Brasil Atual &nbsp; Os trabalhadores na Ford de S\u00e3o Bernardo do Campo, no ABC paulista, fazem na manh\u00e3 desta ter\u00e7a-feira (19) mais uma assembleia para discutir os pr\u00f3ximos passos da mobiliza\u00e7\u00e3o. Hoje se completa um m\u00eas desde que a montadora anunciou o fechamento da f\u00e1brica. 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