Sabedoria para alimentar

Sabedoria para alimentar

Cuidado aos idosos em São Lourenço do Sul

Aqui, dia de aula é dia de festa. Imagem: Marcos Massa

O ano é o distante 1980. Duas amigas tiveram a ideia de, na pequena cidade de São Lourenço, criar um asilo para abrigar idosos que não tinham condições de viver seus últimos anos de vida de forma digna. Lutaram por um espaço junto à Prefeitura Municipal, que doou uma construção onde funcionava um entreposto de pesca, à beira da Praia de Nereidas.

Era o início da luta de Vera Maria Winck, que ainda atua como presidente do Lar dos Velhinhos São Francisco, e relembra com carinho dos tempos de inauguração do espaço. “Ficamos mais de um ano em reformas, o espaço era totalmente decadente, e iniciamos nosso trabalho abrigando oito idosos – hoje, são cinquenta e temos uma fila de espera enorme, que não atendemos por falta de espaço”, relata. As praias de água doce costeadas pela Lagoa dos Patos atraem muitos turistas durante as estações mais quentes, que lotam a praia que fica imediatamente à frente da frondosa casa onde vivem os idosos. Os idosos em sua maioria são encaminhados pela Secretaria Municipal de Assistência Social e também buscam por procura espontânea e/ou da família.

As alunas participativas. Imagem: Marcos Massa

Engana-se quem pensa que é uma casa triste, quieta, escura. O Lar não atende nenhuma destas expectativas. Já na chegada, um alegre séquito de vovôs e vovós conversam animadamente em cadeiras cuidadosamente dispostas no suave sol de primavera, em frente a casa. Enquanto alguns moradores tiram a sua sesta, outros conversam e riem, tecendo um clima de amizade e companheirismo.

No vasto salão que serve de refeitório da casa, as funcionárias já estão reunidas no começo de tarde para receber as instruções da nutricionista Simone Radmann Wienke em mais uma aula do projeto “Alimentar e Nutrir”, apoiado pela Dana através da Rede Parceria Social. “O projeto promove ações que levem a melhoria das instalações da cozinha do Lar Santo Antônio e práticas alimentares mais adequadas, permitindo com que os idosos possam consumir e auxiliar no preparo de alimentos saudáveis e nutritivos”, explica a nutricionista.

Para que isto aconteça, porém, antes é preciso que haja uma conscientização das cuidadoras e cozinheiras do local, que convivem diariamente com os idosos e têm o poder de transformar os hábitos alimentares deles. “Essa fase de treinamento é essencial para nós porque mudar a cultura de idosos é muito mais difícil, eles são resistentes quanto à alimentação mais saudável por pura falta de hábito, não gostam de tomar água… mas, aos poucos, com carinho, tudo isso vai mudando”, ri a nutricionista, com a experiência de quem trabalha há mais de dois anos ali.

A prioridade é ver estes idosos sorrindo. Imagem: Marcos Massa
A prioridade é ver estes idosos sorrindo.
Imagem: Marcos Massa

A aula é só sobre as diferenças que são primordiais entre a nutrição de adultos e de idosos. Qual a melhor forma de cuidar de idosos? Que tipo de alimento não pode faltar nas refeições deles? Quantas refeições são necessárias por dia? Que dificuldades físicas dificultam na absorção de quais nutrientes? Muitas dúvidas foram solucionadas durante o treinamento.

”Os idosos têm diversos fatores que influenciam seus problemas de nutrição: a dificuldade da atividade mastigatória, o fato de estarem com sede e não sentirem isso como nós sentimos, a sensibilidade muito maior da boca e lábios, a dificuldade de absorver fibras, entre muitos outros”, explica a nutricionista. Para isso, é essencial tomar todos os cuidados possíveis: nunca dar alimentos muito quentes ou frios para eles, providenciar um ambiente agradável para que façam as refeições com mais calma, já que encontram dificuldades para mastigar bem os alimentos, oferecer sempre muito líquido a eles, cuidar para que a apresentação dos alimentos esteja sempre bonita… “Antigamente, não havia a preocupação com estética – se o idoso tinha dificuldade de mastigação, o alimento era amassado até virar uma comida disforme, nada atraente. A verdade é que ninguém quer comer algo feio. Fizemos um teste com as cuidadoras – esmagamos a comida e pedimos se alguém gostaria de comer aquilo, se tinha vontade. Elas entenderam na hora que era preciso mudar isso”, conta a nutricionista.

Uma imagem que resume bem o Lar do Idoso. Imagem: Marcos Massa
Uma imagem que resume bem o Lar do Idoso.
Imagem: Marcos Massa

Liane Wrage trabalha como acompanhante terapêutica dos idosos e está participando do projeto deste o início. Ela relata que, apesar do pouco tempo de mudanças, alguns fatores já começaram a ser observados no comportamento e saúde dos moradores do Lar: menos casos de problemas de infecções e diarreias, além do aumento significativo no consumo de água e também o fato dos idosos estarem dormindo um sono de melhor qualidade, mais tranquilo. “Trabalho aqui há onze anos e, por isso, sei como funcionam as coisas: no início, os velhinhos demonstram alguma resistência ao que é diferente, até porque para eles, qualquer mudança é muito mais complicada de aceitar do que para nós. Eles lutam contra a própria vontade de inércia, sedentarismo, e é encorajador vê-los buscar por qualidade de vida e ajuda-los a conquistar isso”, relata.

O relato da auxiliar de alimentação Laura da Silva Botelho, que trabalha há pouco mais de três anos no Lar, é complementar ao da colega. “Há um tempo atrás, eles iam mais ao médico e, como alguns deles trazem problemas crônicos como a diabetes, hipertensão ou asma, toda melhoria na qualidade de vida deles reflete diretamente em sua saúde e é essencial”, afirma. “Isso melhora não só a vida deles, como nosso trabalho, que é cuidar deles praticamente 24 horas por dia”, explica.

A assistente social Maíra é só sorrisos. Imagem: Marcos Massa
A assistente social Maíra é só sorrisos.
Imagem: Marcos Massa

As mudanças na estrutura também são consideradas importantíssimas para a instituição, que agora conta com um fogão industrial, um freezer e novos equipamentos, como canecas térmicas onde é servido o chá ou café dos lanches. Maíra Hax Mendes de Souza é assistente social e trabalha há dois anos na instituição, e relata que os moradores do Lar são muito observadores e os primeiros a observar qualquer coisa diferente. “Eles ficam super gratos com tudo, porque sentem-se cuidados com carinho”, conta. Onze dos moradores são portadores de alguma debilidade física, ocorrência de AVCs, por exemplo, e eles também contam com fisioterapia e educação física para amenizar os sintomas e isso, complementado com as mudanças alimentares, ajuda muito a ter uma vida melhor. “As oficinas também serão ministradas para os idosos que possuem familiares, e eles também participam das aulas práticas e colocam a mão na massa – e se divertem muito nessa função”, comemora ela.

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