Nutrivida

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Nutrindo chances de crescer

Os alunos se orgulham do “Orfolinho”, muffin de banana produzido pela turma. Imagem: Marcos Massa

Desde 1979, jovens da Vila Orfanotrófio contam com um projeto oferecido pela Associação do Centro Comunitário Orfanotrófio que os capacita para trabalharem em padarias e confeitarias. Com o passar dos anos, a padaria onde aconteciam as oficinas deteriorou-se: precisava de num novo piso, forro, equipamentos de trabalho e infraestrutura para atender à demanda do curso, ainda muito procurado pelos jovens da comunidade.

Em 2009, este projeto ganhou uma nova energia com a adesão da ONG Rede Criar e com o patrocínio da Dana, através da Rede Parceria Social. O projeto passou a se chamar “Nutrivida” e pressupõe a educação para a sustentabilidade como eixo norteador de suas atividades, ampliando o conhecimento e interação destes jovens. Assim, o projeto gera novas possibilidades de uma alimentação mais sustentável, possibilitando maior qualidade de vida, consciência socioambiental e nutricional – tudo isso articulado à geração de renda.

Cerca de 20 adolescentes com idade entre 13 e 18 anos da Vila Orfanotrófio participam do projeto, que iniciou em abril de 2009. Desde então, eles estão aprendendo sobre sustentabilidade na prática (fazendo hortas e compostagem, por exemplo) e tendo aulas na padaria totalmente reformada, onde produzem o “Orfolinho”, um muffin de banana que é o carro-chefe da turma, cuja receita foi criada e adaptada por eles mesmos.

Os adolescentes também montaram um “tratado” que estabelece regras de convivência entre eles e fizeram uma dinâmica para descobrir do que sentiam falta na Associação. O resultado? A maioria deles queria ter aulas de street dance, paralelamente ao trabalho com a padaria. Com isso, muitos deles não têm mais tempo ocioso – passam o turno inverso da escola dentro da Associação, seja no projeto da padaria, seja nas aulas de street dance.

Cledenilson: pura alegria. Imagem: Marcos Massa
Cledenilson: pura alegria.
Imagem: Marcos Massa

Cledenilson Soares Bica, 16 anos, estudante do Ensino Médio da Escola Emílio Mayer, acha que o “casamento” entre as duas aulas foi perfeito porque, além de trazer mais conhecimento para os alunos, melhorou bastante seu entrosamento. “Quando a reforma da padaria ficou pronta, já éramos todos muito amigos por causa da convivência das aulas de street dance”, diz. Cledenilson participa do projeto da padaria desde 2008 e diz que ele ganhou um novo fôlego com a cozinha reformada e a criação do “Orfolinho” – o logotipo da embalagem do produto foi, inclusive, criação de seu irmão mais novo Cléoton, que também participa do projeto. Eles cresceram dentro da Associação – sua mãe, Idiacuí Soares, é a educadora que há mais tempo trabalha na instituição. “Sinto muito orgulho do trabalho da Associação, porque convivemos com problemas graves aqui na vila, como o tráfico de drogas e o aumento do número de usuários, e hoje, estamos aqui aprendendo coisas novas, repassando este conhecimento adiante e pensando em geração de renda e no nosso futuro”, afirma.

Idiacui Soares contabiliza 17 anos de atuação nesta comunidade, e ressalta que o projeto da padaria é vital. “Ele mudou a vida de muitos jovens nesta Vila – tanto que o professor que ministra as aulas de padaria se formou aqui e trabalha há muitos anos neste ramo. A Vila tem seus problemas, por isso é importante dar ferramentas para estas crianças e adolescentes para que possam construir o sonho de um futuro melhor – e realizá-lo”, afirma.

Ela conta ainda que o mais importante é o fato do projeto ter continuidade e acontecer dentro do Centro Comunitário. “As crianças entram aqui na creche e saem adolescentes, por isso é vital termos oficinas que os capacitem para que possam ocupar seu tempo no turno inverso da escola e aprender algo que vai os ajudar na vida profissional, como é o caso da padaria”, explica.

Lucas está orgulhoso. Imagem: Marcos Massa
Lucas está orgulhoso.
Imagem: Marcos Massa

Uma prova disso é a historia de Lucas Rodrigues Vedoy, que não quer somente aprender receitas no projeto Nutrivida – tem a convicção de que vai ser padeiro e sair da oficina empregado. Ele tem 18 anos e diz, convicto, que nada o fará desistir desse sonho antigo. Ele participa do projeto da padaria há três anos, mas com a troca de professores e da administração do Centro ficou difícil encontrar continuidade no projeto. “Quero sair daqui um profissional, com formatura e tudo”, diz. Seu maior orgulho nesta etapa de finalização do projeto é justamente o “Orfolinho”, que foi criação da turma, em conjunto. “Quando penso que criamos nosso produto, que é algo diferente, fico muito satisfeito, parece que é um ‘filho’ nosso. Aprendemos a trabalhar em equipe, a obedecer cronogramas para fazermos as entregas na data combinada, além de reaproveitar alimentos e também cuidar do meio ambiente. Foi um ano de grandes novidades”.

Ele mora na Vila Orfanotrófio com a mãe, Camila, e o padrasto, Cláudio. Quando perguntado sobre o aumento da autoestima, ele só tem algo a dizer: “Eu havia parado de estudar na quinta série do Ensino Fundamental e, com o início do projeto, comecei a frequentar a escola novamente porque percebi a importância e a diferença que o conhecimento – e um diploma – podem fazer na hora de conseguir um emprego”.

Despertar do empreendedorismo

Thaís: a organizada. Imagem: Marcos Massa
Thaís: a organizada.
Imagem: Marcos Massa

Thaís Baptista tem apenas 14 anos e, mesmo assim, observa grandes mudanças em si depois deste ano de projeto Nutrivida. Estudante da Escola Estadual Brigadeiro Silva Paes, ela é conhecida como “a empreendedora” do grupo. Organizada, Thaís cuida das encomendas, organizou cronogramas – até mesmo para a limpeza da cozinha após as aulas – e viu despertar nela mesma um lado que não conhecia. Mesmo sem querer, virou um exemplo para os colegas. Hoje, pretende cursar faculdade de arquitetura. “Eu acho que faço bem as coisas porque faço o que gosto. Adoro cozinhar, aprendi muita coisa na oficina das quais eu nunca havia ouvido falar e gosto mesmo de organizar a produção do Orfolinho. O mais interessante é que todos nós, da turma, crescemos juntos dentro do projeto, cada um do seu jeito”.

Thaís é uma das poucas meninas da aula, mas nem por isso é menos entrosada com os colegas. “Todos nós nos conhecíamos aqui da vila e nos damos bem – procuro não só aprender com os professores, mas também com meus amigos”, conta. Ela também participa do Centro de Tradições Gaúchas e das aulas de dança afro e street dance ministradas no Centro Comunitário, além do projeto da padaria. Thais quer levar o conhecimento que vai adquirir adiante. “Hoje, me sinto uma vitoriosa, vendo tudo o que conquistamos juntos”.

Cleoton cresceu dentro da Instituição. Imagem: Marcos Massa
Cleoton cresceu dentro da Instituição.
Imagem: Marcos Massa

A responsável técnica pelo projeto, Andréa Foresti, conta que a proposta inicial do “Nutrivida” envolvia visitas a lares da vila Orfanotrófio, o que se provou inviável devido ao tráfico de drogas na comunidade. “Queríamos trazer mais pessoas para o projeto, mas tivemos que mudar os planos. Por isso, fizemos uma parceria com a Escola Estadual Brigadeiro Silva Paes, onde promovemos uma Gincana Socioambiental, em que os alunos da padaria foram os monitores dos alunos de 4ª série”. O resultado foi um sucesso – os adolescentes do “Nutrivida” foram capacitados para ajudar as crianças na gincana, levando até eles conceitos de reciclagem de lixo, sustentabilidade e cuidados com o meio ambiente.

Cleoton Gonçalves Silva, de 14 anos, foi um dos alunos que participou como monitor da gincana. Ele estuda na Escola Municipal Vereador Martin Aranha e participa do projeto da padaria desde o ano passado. Ele é irmão de Cledenilson e, como ele, se criou dentro do Centro Comunitário. Cleoton também participou de oficinas sobre reciclagem de lixo e é um dos alunos mais dedicados nas aulas de street dance. É dele a arte das embalagens do Orfolinho. ”O mais legal de estar no Centro – seja na padaria, seja nas aulas de street dance ou de aprendizado sobre empreendedorismo – é que não estamos na rua. Hoje, sou muito mais produtivo e tenho orgulho do produto que criamos nas aulas da padaria”.

Elza: mais confiante em si. Imagem: Marcos Massa
Elza: mais confiante em si.
Imagem: Marcos Massa

Elza Paola Soares Alvez, de 15 anos, ficou sabendo do projeto “Nutrivida” através dos amigos Lucas e Thaís. Desde os cinco anos, ela frequenta o Centro para fazer aulas de dança afro, mas viu na oficina de padaria uma perspectiva real de mudar de vida. “Posso dizer que existia uma Elza antes de entrar nas aulas de padaria e outra agora. Sou uma pessoa diferente, mais segura, que aprendeu coisas das quais nunca havia ouvido falar, como a reciclagem de lixo e o reaproveitamento integral de alimentos”, relata. Ela mora com seus pais, Naraí de Lima Soares, aposentada, e Luiz Carlos da Silva Alvez, agente de saúde. “A experiência de participar como monitora da gincana que realizamos reforçou minha vontade de ser professora, mas minha maior alegria com o projeto ainda foi a criação do nosso próprio produto, o Orfolinho. E, é claro, ver que ele está fazendo sucesso”, finaliza.

Inicialmente, o pão produzido por estes jovens no projeto “Nutrivida” era consumido pelas 160 crianças da creche da Vila Orfanotrófio. Entretanto, as novas receitas trouxeram também a possibilidade de comercialização e geração de renda para o grupo, já que incluem bolos bastante nutritivos – o que ajuda o projeto a ser auto-sustentável. A Rede Criar também tem parceria com a Ritter e os alunos de design ajudaram a criar a embalagem destes bolos. E, numa parceria com o SEBRAE, os alunos também receberam aulas de empreendendorismo para que sejam capazes de comercializar por si próprios o que for produzido na padaria. A responsável pelo projeto ressalta que as mudanças na turma aconteceram muito rápido e foram muito significativas. “Hoje, olho para estes adolescentes e vejo que desenvolveram um senso de propriedade por este produto, uma responsabilidade, além do fortalecimento da cidadania e da autoestima”, conclui Andréa.

Sobre a Rede Parceria Social

A Carteira de Projetos da Rede Parceria Social é uma iniciativa conjunta da Secretaria da Justiça e do Desenvolvimento Social, organizações sociais e empresas, com objetivo de realizar projetos sociais em todo o Rio Grande do Sul, abrangendo diversas áreas da assistência social e beneficiando centenas de pessoas.

Leia mais sobre a parceria da Dana com a Rede Parceria Social aqui.

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