Doces Saberes

Doces Saberes

Aulas de culinária que alimentam sonhos

Alunas escolhem com carinho os formatos dos biscoitos. Imagem: Marcos Massa

Na Vila Kephas II, duas vezes por semana, acontecem as aulas do projeto “Doces Saberes”, financiado pela Dana através da Rede Parceria Social. São duas turmas de 12 pessoas formadas por alunos de idades variadas, que frequentam aulas de confeitaria. As aulas têm duração de três horas e são ministradas pelos educadores do SENAC – padeiros, confeiteiros e nutricionistas.

A tarde é congelante, mas os 12 alunos reúnem-se na Associação de Moradores da Vila Kephas II, em Novo Hamburgo. A receita do dia? Panetone integral – e também cidadania e empreendedorismo. Flávia Ruschel Petry, responsável técnica pelo projeto e assistente social da ASBEM, diz que o objetivo principal do curso é capacitar estas pessoas para que possam atuar no mercado, vendendo os produtos que elas mesmas fazem. “A ideia do projeto surgiu de uma demanda da própria comunidade deste bairro: o alto índice de pessoas que perderam emprego na indústria calçadista com a crise e a necessidade de empresários do ramo de padarias e confeitarias por profissionais capacitados”, explica.

O curso mudou a vida de Marli. Imagem: Marcos Massa
O curso mudou a vida de Marli.
Imagem: Marcos Massa

Marli dos Santos, moradora da Vila Santiago, é uma destas pessoas que perdeu seu emprego numa fábrica de calçados, onde trabalhou durante 14 anos. Ela tem um casal de filhos: Jonathan, de 14 anos e Thalia, de três anos e meio, e mora com o marido Valdolir há 14 anos, que trabalha na indústria calçadista. Marli ficou cinco anos sem emprego e, quando ouviu falar do projeto “Doces Saberes”, não pensou duas vezes em inscrever-se. A dedicação é tanta que ela não perdeu uma só aula. “Daqui pra diante, ou trabalharei em uma padaria ou farei minhas receitas em casa e venderei eu mesma”, diz. Marli sempre gostou de cozinhar, mas agora está adorando mais ainda – seu pai é diabético, e ela aprendeu uma série de receitas integrais para ajudar na dieta dele.

Os olhos de Marli brilham ao falar de como as aulas mudaram sua vida: “Depois de cinco anos sem emprego, tive câncer no útero durante a gravidez da minha filha e entrei em depressão profunda porque o médico não me deu mais do que seis meses de vida. Hoje, participando do projeto, a hora mais feliz da minha semana é aquela em que me arrumo para vir para as aulas, porque elas me dão uma nova perspectiva de vida, de um futuro melhor para mim e para minha família”, emociona-se.

Outra moradora da Vila Santiago é Maria Elaine dos Santos, que vende seus bolos e massas desde que aprendeu a cozinhar enquanto trabalhava como faxineira de uma padaria em Santa Maria. “Há 15 anos, trabalhei numa padaria e ficava até depois do horário para, depois de limpar tudo, aprender as receitas com a padeira”. Deu tão certo que ela passou a fazer seus pães, massas e bolos para vender onde morava. Até hoje, ela trabalha com isso, só que agora em Novo Hamburgo, batendo de porta em porta do bairro onde mora. “Aqui no ‘Doces Saberes’, aprendi receitas mais saudáveis, que usam grãos, o que aumenta minhas possibilidades de venda; e também sobre nutrição. Hoje em dia, muitas pessoas têm restrições alimentares ou fazem dieta, e isso está me ajudando muito”.

Ivone aumentou sua autoestima. Imagem: Marcos Massa
Ivone aumentou sua autoestima.
Imagem: Marcos Massa

Maria é mãe de Luis Ricardo, 18 anos (que trabalha como padeiro num supermercado, com os ensinamentos que aprendeu da mãe), Jair, 15, Franciele, 12, Rosângela, 11 e Carla, dois. Separada, criou todos sozinha, com a venda de seus doces e salgados. “Eles têm orgulho de mim, me ajudam muito e, lá em casa, nosso esquema é um por todos e todos por um. Hoje, tenho muitos clientes fixos e meus filhos entendem minha rotina corrida e me incentivaram a fazer o curso, onde estou aprendendo muita coisa nova”.

Ivone Eloi do Nascimento trabalha como cozinheira voluntária no “Comida Urgente”, projeto que acontece na Associação de moradores da vila. Há três anos, ela trabalha na ONG e, ao mesmo tempo, acompanha o crescimento dos filhos Alex, 14 anos, Alessandro, 12, e Alenon, nove. Os três frequentam outros projetos da Associação de moradores no turno inverso da escola – Ivone diz que eles são os maiores beneficiados da sua participação no “Doces Saberes”.

“Eles e meu marido sempre querem provar as receitas novas que aprendo nas aulas”, ri. Ivone diz que sua autoestima aumentou muito desde que começou a frequentar o “Doces Saberes”, pois aprendeu receitas diferentes, que pode inclusive aplicar no seu trabalho como voluntária, tornando-se uma verdadeira multiplicadora. “Hoje, me sinto mais reconhecida como voluntária e como mãe e esposa. E aprendi conceitos sobre Segurança Alimentar que levarei para toda a vida”, relata.

Velci: incentivo à comunidade. Imagem: Marcos Massa
Velci: incentivo à comunidade.
Imagem: Marcos Massa

O presidente da Associação de Moradores da Vila Kephas II, Velci da Silva, confirma o que Ivone diz. “Os conceitos de Segurança Alimentar e de Coleta Seletiva foram novidade para muitas das alunas – e estão sendo passados adiante para as famílias da vila, através delas mesmas”, explica. Velci é o único homem da turma e inscreveu-se para incentivar as pessoas da comunidade a fazer o mesmo.

Velci trabalhou como cobrador de ônibus durante 13 anos e hoje administra a Associação de moradores e atende às necessidades do bairro através do orçamento participativo de Novo Hamburgo.

É casado com Cristiane há nove anos, e os dois estão esperando ansiosamente a chegada do segundo filho – os dois já são pais de Adrielle, de oito anos. “Sempre gostei de cozinhar em casa, mas aprendi muito sobre nutrição e a importância do reaproveitamento dos alimentos e uma alimentação mais saudável. Com certeza, todo mundo que participa do curso está levando isso para a casa e para a comunidade – já que muitas destas mulheres irão comercializar o que fazem aqui”, diz.

Fátima: alegria de viver. Imagem: Marcos Massa
Fátima: alegria de viver.
Imagem: Marcos Massa

Fátima Teresinha Pereira Duarte já faz isso. Na manhã que antecedeu a aula, havia feito 150 risoles para suas clientes – e tem fôlego de sobra para aprender. Faz apenas um mês que ela começou a vender seus doces e salgados, mas a clientela é tanta que chega a bater na porta de sua casa no final de semana para fazer encomendas. Ela trabalhou durante muitos anos como professora de tricô, mas viu na culinária uma alternativa melhor para sustentar sua família. Dorme apenas cinco horas por noite e, durante o dia, percorre o bairro vendendo seus doces e salgados.

Fátima é mãe de Dejanir, de 29 anos, Taís, de 27, e perdeu a filha Meriele quando esta tinha apenas 22 anos, deixando duas netas para Fátima criar. Hoje, as netas Gaziela, de 16 anos, e Bruna, de 14, estão sob seus cuidados. “Ajudei a criar meus irmãos, irmãs – ao todo, criei dez filhos que não eram meus, além dos meus três. Eles me chamam de super mulher, mas acho que estou longe disso”, diz.

No curso, sua maior alegria é aprender receitas mais saudáveis, conceitos de empreendedorismo e dividir o que sabe com as colegas. “É difícil eu não estar sorrindo. Só por estar aqui adquirindo conhecimento, algo que ninguém me tira, já estou feliz demais. Viramos todas amigas aqui no curso, e dividimos alegria, tristeza e sabedoria”.

Pâmela: vontade de crescer. Imagem: Marcos Massa
Pâmela: vontade de crescer.
Imagem: Marcos Massa

A caçula da turma é Pâmela Abigail Ziebell dos Santos, de 16 anos, que também mora na Vila Kephas II com o marido, Paulo Cesar dos Reis. Os dois retomarão os estudos para concluir o Ensino Médio no ano que vem, e ele foi o principal incentivador para que ela fizesse o curso do projeto “Doces Saberes”. “Aprender coisas novas nunca é demais, ainda mais se é algo que vai me ajudar no futuro. Já tive vários empregos: fui babá, operária de uma fábrica, vendedora de uma padaria… E, neste último, descobri o gosto pela profissão”, conta a jovem.

As colegas, na faixa dos 40 anos, também lhe ensinam muita coisa e tornaram-se boas amigas de Pâmela. “Elas me dão conselhos, ajudam ensinando receitas novas, e os professores são ótimos. Semana passada fiz em casa uma receita que aprendi no curso, um pão trançado que tinha cenoura e beterraba, e meus sobrinhos, que não comem frutas nem legumes, adoraram”, ri.

Pâmela pretende, no final do curso, conseguir emprego em uma padaria ou confeitaria – mas agora não mais atrás do balcão, e sim dentro da cozinha.

Sobre a Rede Parceria Social

A Carteira de Projetos da Rede Parceria Social é uma iniciativa conjunta da Secretaria da Justiça e do Desenvolvimento Social, organizações sociais e empresas, com objetivo de realizar projetos sociais em todo o Rio Grande do Sul, abrangendo diversas áreas da assistência social e beneficiando centenas de pessoas.

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