Delícias Caseiras

Delícias Caseiras

Alegria e aprendizado em Novo Hamburgo

Alegria é marca registrada. Imagem: Marcos Massa

“É tanta alegria que não cabe na cozinha”, disse Tatiana Gonçalves Lima, Assistente Social Responsável Técnica pelo projeto Delícias Caseiras, apoiado pela Dana através da Rede Parceria Social. E é verdade: as 15 alunas que se reúnem duas vezes por semana no Centro de Vivência Redentora (CVR), em Novo Hamburgo, são a soma da mais pura alegria e empolgação. O objetivo geral do projeto está alinhado com os demais apoiados pela Dana: oportunizar a aprendizagem na área de culinária, em especial doces, salgados, reaproveitamento de alimentos e segurança alimentar, para geração de trabalho e renda. Os resultados de aumento de autoestima são visíveis e quase palpáveis.

O projeto acontece no Centro de Vivência Redentora, programa socioeducativo criado e mantido pela Fundação Semear, que atende uma população moradora da região periférica do município de Novo Hamburgo com grande percentual de moradias em condições irregulares. O CVR é tradicional no bairro e oferece oficinas de balé, artes cênicas, dança de rua, inclusão digital, cidadania, artes, canto e percussão para crianças e adolescentes provenientes dos bairros São José (Vilas Kephas, Kephas Norte e Kephas 2, Colina da Mata, Esperança), Diehl (Vila Redentora e Pedreira) e São Jorge – a maioria oriunda de famílias de baixa renda, com dificuldades socioeconômicas.

A Fundação Semear é bastante tradicional e, no final de 2010, fez uma pesquisa nestes bairros. Como resultado, verificou que cerca de 48% das pessoas que moram nestes locais têm algum parente próximo (pai, mãe ou irmãos mais velhos) desempregado ou sem qualificação profissional para se inserir no mercado de trabalho. “Esta realidade acaba provocando um desequilíbrio na organização das famílias e gera a necessidade de contribuir para a renda, por isso as mulheres sugeriram a criação deste curso”, conta Tatiana, a Assistente Social responsável pelo projeto.

A tarde era de muita chuva, mas nem por isso as alunas faltaram à aula: elas estavam a postos e empolgadíssimas para aprender mais uma receita de reaproveitamento de alimentos e segurança alimentar. Uma delas conta que, agora, usa as técnicas ensinadas pela nutricionista para higienizar e para descascar frutas e legumes. “É incrível, um só estímulo e elas não esquecem mais, e instigam sempre a fazer melhor e criar receitas para que nada seja desperdiçado”, relata a nutricionista Jéssica Pfarrius.

Segundo a Assistente Social, um grande diferencial do projeto Delícias Caseiras foi justamente o fato dele ter partido de uma iniciativa das próprias alunas – que pediram estas aulas como uma alternativa para complementar a renda de suas famílias – e também o crescimento da consciência ambiental das pessoas, que sabem que quanto menos desperdício melhor.

O entusiasmo contagiante de Angelita. Imagem: Marcos Massa
O entusiasmo contagiante de Angelita.
Imagem: Marcos Massa

Elas se encontram duas vezes por semana desde novembro de 2010 e, elas mesmas dizem, o projeto mudou muitas coisas nelas, inclusive sua forma de ver o mundo. Muito risonha, Angelita Fátima Dias, moradora da Vila Kephas, conta que sofria de hipertensão e já havia recebido conselhos médicos para se alimentar de forma mais saudável, mas não havia encontrado solução para o problema. “Em casa, eu até fazia sucos, mas daqueles em pó, e comia bastante frituras. Aprendi a fazer sucos deliciosos, com grande valor nutritivo e a reaproveitar alimentos que antes eu jogava fora, descartava sem nem pensar. Aprendi que muitos dos nutrientes ficam na casca dos alimentos e ensinei minhas amigas a cozinhar as coisas com suas cascas e aproveitar as das frutas para os sucos ficarem mais gostosos e nutritivos”, ensina.

A nutricionista concorda com essa observação natural da aluna, e vai além: “Hoje, faremos um suco com polpa de maracujá. Numa das aulas, usamos polpa também e, depois de coada, as meninas perguntaram o que poderíamos fazer para aproveitar aquela polpa que ficou no coador, se poderíamos fazer um bolo, um sorvete… Elas são incríveis, maravilhosas, e muito criativas”, incentiva a jovem. Angelita conta que o marido, Vilmar, adorou as novas receitas e que as duas filhas, Mônica, de 13 anos, e Luiza Abigail, de cinco, também estão aderindo a uma alimentação mais leve. “Além do mais, minha pressão normalizou”, relata, animada.

Trabalho em equipe é o segredo. Imagem: Marcos Massa
Trabalho em equipe é o segredo.
Imagem: Marcos Massa

Sua colega, Lúcia Maria Pacheco, conta que nunca faltou a nenhuma aula. Ela mora no bairro São José e frequenta o curso desde novembro de 2010, quando iniciou. Com um grande sorriso, explica a razão de tanto interesse. “O curso é ótimo, está sendo uma experiência totalmente nova na minha vida e aprender a cozinhar de forma mais saudável e ajudar a natureza é fantástico”, diz, empolgada. Lúcia diz não entender como as pessoas conseguem não separar o lixo em suas casas, uma coisa tão simples e que faz tanta diferença. O marido Eliezer e o filho Fabiano, de 16 anos, são as ‘cobaias’ das receitas aprendidas no curso. O adolescente, ela confessa, só come quando ela não conta quais frutas e legumes estão na receita, mas seu marido adora. “Além disso, ficamos bastante amigas e as aulas são divertidas e passam voando!”, conta.

Lucimar Mendonça de Oliveira trabalha no Centro de Vivência Redentora preparando os lanches para as crianças e está há três anos na instituição. “O clima aqui é ótimo, todas queremos aprender bastante e estamos adorando as aulas”, relata. A nutricionista reitera o interesse das alunas: “É impressionante a receptividade delas em relação ao tema e a motivação que as une a vir aqui duas vezes por semana sempre com interesse e alegria. Elas ainda estão empolgadas com a perspectiva de incrementar a renda de suas famílias, mas não é só isso: elas adoram as receitas, repassam para as amigas e vizinhas, e as questões de higiene alimentar e horta e reaproveitamento de alimentos também. É empolgante fazer parte deste projeto”, diz Jéssica. Vale lembrar que as receitas do Delícias Caseiras prevêem a utilização de cascas, folhas e talos e podem diminuir os gastos, tornando o cardápio mais acessível e aumentando o valor nutricional ao mesmo tempo.

Hoje, o Centro de Vivência Redentora atende em torno de 220 crianças e adolescentes e o projeto Delícias Caseiras incentiva a economia doméstica, alimentação saudável com custo mais baixo e a diminuição do desperdício de alimentos no cotidiano local – muitas das alunas são mães das crianças e jovens que frequentam o Centro ou até mesmo as funcionárias do local. Ao final do projeto, as alunas organizarão uma mostra de comidas alternativas, com receitas desenvolvidas por elas e com o oferecimento de degustação. Será firmada parceria com estabelecimentos comerciais para doação de talos e rejeitos para o desenvolvimento das receitas.

Sobre a Rede Parceria Social

Todos os projetos patrocinados pela Dana na fase 2010/2011 envolvem Segurança Alimentar, como também na fase anterior, e acontecem em diversas cidades do RS: Porto Alegre, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Gravataí, Caxias do Sul e Montenegro. “Apesar do tema da Segurança Alimentar ter sido mantido, é importante ressaltar que agora apoiamos projetos novos, diferentes do ano passado. Estamos alinhados com os objetivos da Rede Parceria Social, que objetiva que, após um ano, as ONGs tenham conhecimento para andar com as próprias pernas”, diz Luis Pedro Ferreira, Gerente de Comunicação Corporativa da Dana.

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