Culinária Criativa

Culinária Criativa

Aproveitamento integral de alimentos e receitas inovadoras

Nhoque de pão produzido pelas alunas do Culinária Criativa. Imagem: Marcos Massa

Rio Grande fica a 317 km de Porto Alegre e é a cidade mais antiga da colonização portuguesa do Rio Grande do Sul, tendo sido por muito tempo a capital do Estado. Com seus casarões antigos, é uma cidade litorânea e portuária (o porto de Rio Grande é o segundo em movimentação de cargas do Brasil). Lá, no bairro Santa Rosa, fica, também num grande casarão antigo, a Escola de Orientação Profissional Assis Brasil, fundada em 1948 e que hoje abriga o curso de “Culinária Criativa”, promovido pela Rede Parceria Social e que conta com o apoio da Dana.

A presidente da instituição, Cátia Tubino da Rocha, explica que, desde a década de 90, os projetos desenvolvidos visam preparar jovens para a realidade do mercado de trabalho, oferecendo cursos de capacitação e seu ingresso na sociedade produtiva. Na escola, ainda funciona uma creche. “Muitas mães das crianças já atendidas pela instituição são jovens que devido à maternidade precoce abandonaram o estudo e não possuem nenhuma qualificação profissional e buscam agora uma nova oportunidade de retomada de seus projetos de vida”, afirma Patrícia Peixoto, assistente social responsável pelo projeto.

Para que os objetivos do projeto sejam atendidos, estas pessoas têm aulas três vezes por semana – duas delas teóricas e a outra, prática. Ao todo, o projeto atende duas turmas, reunindo cerca de 30 alunas, jovens e adultas, que em sua maioria abandonaram a escola ainda no Ensino Fundamental. O projeto se desenvolve em três eixos: orientação ao consumo integral de alimentos; qualificação profissional no campo da culinária e economia solidária, com a consequente geração de renda.

Kellen agora reaproveita alimentos. Imagem: Marcos Massa
Kellen agora reaproveita alimentos.
Imagem: Marcos Massa

Kellen de Leão Santos, de 27 anos, é um exemplo desta realidade: abandonou a escola no último ano do Ensino Fundamental. Ela nasceu no Chuí, mas mudou-se para Rio Grande aos 18 anos, já casada com Cedonir Barbosa, que trabalhava como frentista de posto de gasolina e hoje está desempregado, assim como ela. Os dois são pais de Vitória, de sete anos, que está na primeira série do Ensino Fundamental e, durante a tarde, frequenta a creche da Escola de Orientação Profissional Assis Brasil. Os três moram no bairro Santa Rosa, em uma pequena casa de três cômodos. Kellen está acostumada a se virar para conseguir sua renda. Trabalhou como doméstica em uma casa de família durante três anos e em 2008 fez seu primeiro curso de culinária, já pensando em aumentar a renda da família unindo o útil ao agradável – Kellen sempre adorou cozinhar.

“Eu nunca havia ouvido falar de reaproveitamento de alimentos e muito menos pensei que as receitas pudessem render tanto e fossem tão saborosas”, diz. Ela participa do “Culinária Criativa” desde o início de 2009 e diz que sua autoestima aumentou muito, além de se sentir muito mais extrovertida e animada com a vida. “Antes do curso, eu colocava todas as cascas de alimentos fora. Agora, uso para tudo e já estou até inventando as minhas receitas”, relata, orgulhosa. Daqui para diante, ela quer vender suas criações, baseadas sempre em conceitos como reaproveitamento de alimentos e nutrição balanceada.

Bianca quer viver de culinária. Imagem: Marcos Massa
Bianca quer viver de culinária.
Imagem: Marcos Massa

Sua colega de curso, Bianca Sena Moreira, tem apenas 21 anos, mas sabe bem o que quer da vida: viver da venda do que cozinha em casa. Ela é casada com David há três anos e tem um filho de dois anos, Eduardo. Ela ainda cria seu irmão de 13 anos, Paulo, desde o falecimento de sua mãe, Terezinha, há cinco anos. Mora numa casa que fica nos fundos da casa da sogra, que é sua colega no curso “Culinária Criativa”. Risonha, Bianca não se deixa abater pelos infortúnios da vida e lembra, sorrindo, do primeiro pão que fez na vida, aos cinco anos de idade: “Ele era tão duro que poderia até servir de arma contra ladrões”, ri. Nasceu em Rio Grande e, além de Paulo, tem mais duas irmãs, já casadas: Vanessa, de 27 e Michele, de 20.

Bianca já fez de tudo na vida: trabalhou como doméstica, em fábrica de peixes, como vendedora ambulante. Agora, participa do curso ativamente e se sente mais feliz e útil do que nunca. “Aprendi a aproveitar os talos e cascas dos legumes e frutas, e hoje sei fazer receitas que nem sonhava antes, como negrinho de mandioca, esfiha de talo de beterraba, bolinho de casca de batata…”, conta.

Junto com as alunas do curso, está organizando um Núcleo, que funcionará como uma Cooperativa para que, juntas, vendam seus produtos. “Ainda quero fazer outros cursos de culinária, mas a turma que fizemos aqui é especial e queremos muito seguir trabalhando juntas”, afirma.

Julieta participa com a nora do curso. Imagem: Marcos Massa
Julieta participa com a nora do curso.
Imagem: Marcos Massa

Sua sogra, Julieta Louzada Bastos, tem 47 anos e já era uma doceira de mão cheia quando matriculou-se no curso. Julieta é casada com Edison há 20 anos, e com eles mora a filha Nicole, de 15. Do primeiro casamento, ela tem outros três filhos: David, 30, Daniele, 25 e Aline, 22. Seu marido Edison trabalha como mestre fluvial, por isso passa um mês navegando e um mês em casa, alternando. Faz cinco anos que Julieta trabalha em casa, fazendo bolos decorados e vendendo-os, e viu no curso uma oportunidade de aprimorar-se.

“Eu gosto tanto do que faço que não vejo as horas passarem. Gosto de estar sempre aprendendo coisas novas, sinto que minha autoestima aumentou muito com isso porque também auxilio na renda familiar”, afirma. Julieta diz que nunca havia pensado em fazer bifes de casca de banana – receita que aprendeu no “Culinária Criativa”, entre outras – e que o vínculo de amizade e o aprendizado com as colegas do curso são muito grandes. “Pretendo abrir meu próprio negócio e sei que meu marido e meus filhos me ajudarão no que for preciso e ficam orgulhosos quando falam em como sou batalhadora”, diz.

Quem também mora nos fundos da casa da sogra é uma das caçulas da turma, Kelen Quevedo, de 21 anos.

A alegria contagiante de Kelen. Imagem: Marcos Massa
A alegria contagiante de Kelen.
Imagem: Marcos Massa

Kelen é casada com Daniel há oito anos e, romântica, conta que ele era seu amor de infância – os dois se conheceram quando ele tinha 10 anos. Eles têm uma filha, Brenda, de oito meses, e a gravidez de Kelen foi bastante sonhada e planejada. Daniel trabalha como borracheiro e Kelen está desempregada, mas já trabalhou como doméstica, cuidou de idosos e de crianças e foi vendedora ambulante na rua. Comunicativa, adora vender e o curso de “Culinária Criativa” une suas duas paixões: cozinhar e vender seus produtos. “Eu quero muito participar do Núcleo que montaremos para vender nossos doces e salgados! Nas feiras em que já participamos, deu pra sentir que o resultado vai ser ótimo”, diz, empolgada. Ela também fala que um ponto crucial é a convivência pacífica entre as alunas do curso, onde fez muitas amigas. Kelen nasceu em Rio Grande e tem quatro irmãos mais novos, que ajudou a criar.

“As aulas de Culinária Criativa reacenderam em mim a vontade de trabalhar com cozinha. A professora é maravilhosa, e meu marido vê o quanto estou empolgada – hoje, por exemplo, ele faltou ao trabalho para ficar com nossa filha para que eu pudesse fazer o curso. Mal posso esperar para montarmos nosso Núcleo”, diz, animada.

Idade não é problema para Maria. Imagem: Marcos Massa
Idade não é problema para Maria.
Imagem: Marcos Massa

Maria da Graça Lages Moraes tem 51 anos e muita vontade de aprender. Participa do curso há dois meses e já trabalhava vendendo seus salgados, mas nunca havia ouvido falar do reaproveitamento de alimentos. Maria mora com o marido, Mário Osny Nunes Moraes, com quem é casada há 30 anos e com as duas filhas, Bárbara, 14 anos e Shirley, 10. O casal tem mais dois filhos, que moram sozinhos: Osny, de 27 anos, e Ony, de 26. O esposo de Maria trabalha como pedreiro e ela sempre foi dona de casa, até começar a fazer salgados para ajudar na renda da família.

“Deu tão certo que estou fazendo este curso para me aprimorar e dar opções mais saudáveis para meus clientes – e que custem menos para mim”, diz. Maria quer participar da cooperativa que as colegas estão organizando e, enquanto isso, treina as receitas que aprende no curso com as filhas mais novas, que aprovam e repetem sempre. “Tudo o que conquistamos nessa vida foi com suor e honestidade, inclusive temos nossa casa própria, e não vai ser agora que vou parar de trabalhar”, diz, taxativa.

Meliza Barros Pereira tem 28 anos e um grande sonho: abrir seu próprio restaurante, lancheria ou confeitaria. Ela é mãe de dois filhos, Kathellyn, de oito anos, e Aguynnon, de um ano e sete meses.

Esperança nos olhos de Meliza. Imagem: Marcos Massa
Esperança nos olhos de Meliza.
Imagem: Marcos Massa

Meliza é divorciada e, atualmente, mora com a mãe, Noemia, que a ajuda a criar os pequenos. Meliza diz que já teve todo tipo de emprego, mas apenas um que não tivesse a ver com alimentação: numa lavanderia. De resto, trabalhou como doméstica, fazia doces e salgados para vender na rua, vendia churrasquinho na praça Tamandaré… “Eu sempre amei cozinhar. Eu tenho uma tia, Janice, que é cozinheira, e aprendi muito do que sei com ela, que também fazia seus doces e salgados para vender. Comecei a gostar e me dedicar para aprender mais sobre isso”.

Meliza estudou até o segundo ano do Ensino Médio, e no ano que vem, pretende concluir os estudos e, em seguida, fazer um curso de Técnica em Enfermagem. Além de ter o diploma, ela quer aprender a cuidar melhor da mãe, portadora de diabetes. Mas seu emprego dos sonhos não muda: “Cozinhar é o que eu amo e sei fazer direito”. O curso de Culinária Criativa lhe ensinou sobre higiene dos alimentos, reciclagem e uso de recursos que, antes, ela jogava fora. “Eu trabalho como faxineira, mas pretendo em breve começar a vender os doces e salgados que aprendi aqui no curso. Participando dele, fiquei com mais vontade ainda de saber mais e mais, quero me qualificar para viver disso”, explica. “A minha vontade de fazer isto dar certo é tão grande e eu gosto tanto do que faço que não tem como dar errado. É essa esperança que me leva sempre adiante”, afirma, sorrindo.

Sobre a Rede Parceria Social

A Carteira de Projetos da Rede Parceria Social é uma iniciativa conjunta da Secretaria da Justiça e do Desenvolvimento Social, organizações sociais e empresas, com objetivo de realizar projetos sociais em todo o Rio Grande do Sul, abrangendo diversas áreas da assistência social e beneficiando centenas de pessoas.

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