Barriga Cheia

Barriga Cheia

Alegria e aprendizado em Montenegro

Alegria é a marca registrada da turma. Imagem: Marcos Massa

A Associação Cultural Beneficente Montenegrina está mais sorridente. O motivo? Três vezes por semana, o local recebe um grupo de 25 alunas de todas as idades com fome de aprender. Fome de cidadania, vontade de fazer melhor, fazer diferente. E com mais leveza e alegria.

A Associação, que completou 95 anos de existência, recebe pessoas de diversos bairros de Montenegro e, conforme conta Simone da Silva Gonçalves, Coordenadora Geral do projeto ”Barriga Cheia”, está mais alegre ainda desde o começo do projeto. A aluna mais nova tem 11 anos e, a mais velha, 73. Em comum, as alunas têm muita vontade de aprender juntas e desenvolver e estreitar seus laços de amizade e união, cuidadosamente cultivados nos encontros periódicos do grupo.

É um sábado ensolarado e, nem por isso, a animação das alunas diminui. Elas chegam aos poucos para a primeira etapa da aula, coordenada de perto por Simone, juntamente com uma nutricionista. Desde o início da elaboração do projeto, Simone empoderou-se e cuidadosamente participa de todas as etapas, desde a pesquisa até a compra e cuidados com os alimentos, procurando sempre beneficiar as pessoas em situação de maior vulnerabilidade social. A leitura das receitas é feita – com a inclusão de curiosidades interessantes sobre os alimentos – para em seguida serem preparadas pelas alunas. “Separamos as alunas em grupos sempre diferentes, para que todas interajam entre si e valorizem o trabalho em grupo e a convivência harmônica”, diz ela.

Uma das etapas mais emocionantes do projeto foi a confecção de uma colcha de retalhos, que servia como avaliação das alunas em relação ao aproveitamento do projeto e também como expressão artística. O resultado é lindo e emocionante: uma série de recortes de vida, percepções e uma linha em comum – o carinho e a união de todas. “Na colcha, notamos o aumento da autoestima delas, o fato de prezarem pela união da turma e o gosto pela culinária e pelo reaproveitamento de alimentos”, diz Simone.

O entusiasmo de Zélia. Imagem: Marcos Massa
O entusiasmo de Zélia.
Imagem: Marcos Massa

A alegria transbordante da aluna com mais idade da turma é conhecida e festejada. Zélia da Silva Lino tem 73 anos e fôlego de deixar muita menina pra trás. “Nasci num dia muito lindo e ensolarado de 1937 e já passei por coisas ruins na vida, mas acredito que a vida é o que a gente faz dela, e eu escolhi viver a minha com alegria”, ensina. Depois de 30 anos trabalhando em um banco da cidade servindo café, ela não descansa: hoje, trabalha como catadora de resíduos recicláveis. Com uma alegria contagiante, ela conta que faz tudo isso usando sempre sapato de salto. “Eu caminho sete quadras inteiras por dia, mas como acostumei a usar sempre salto, não consigo caminhar sem”, ri ela, com um bom humor inabalável. Zélia diz que os filhos apoiam sua iniciativa de participar do projeto e que sempre é hora de aprender. “Minha sobrinha e minha neta também fazem parte da turma e, claro, o bacana de tudo isso é a oportunidade de aprendermos coisas novas e, unidas, criarmos algo juntas”, diz.

Sua sobrinha, Solange Teresinha Pereira, que também participa das aulas, conta que já testou diversas das receitas em casa e que foram aprovadíssimas. Cozinheira de mão cheia, ela adora inventar receitas e as novidades caíram como uma luva. “Gosto bastante de fazer doces, quero ver como vai ficar nossa cocada de hoje. Em casa já reaproveitei cascas de vários alimentos que antes eu jogava fora por não saber reaproveitar”, conta. Ela trabalha na Prefeitura de Montenegro e conta que suas receitas favoritas são as da culinária africana.

Luis Carlos de Oliveira, Vice-Presidente da Associação, lembra que o objetivo inicial do projeto era promover receitas de culinária que abrangessem a cultura africana, mas que houve uma adaptação para que englobasse também o reaproveitamento de alimentos e a segurança alimentar. “Somos uma Associação Cultural que tem o objetivo de manter as tradições e costumes e surgimos numa época em que haviam apenas grupos brancos, por isso quisemos elaborar um projeto que fizesse esse resgate da cultura negra. Mas claro que também achamos essencial cuidar da sustentabilidade ambiental e nos preocupamos também com questões econômicas e sociais”, relata.

E é impressionante como as receitas da cultura afro ficaram marcadas na memória (e no paladar) das alunas, mesmo que mais espaçadas. Gislaine Maria Maia da Fontoura, que mora no Bairro São João e cuida dos seus pais, já idosos, conta que a receita que mais adorou foi o Arroz Africano. Sobre o projeto, ela é taxativa: “Eu não estou gostando, estou adorando tudo! A união da turma é maravilhosa, foi a primeira vez que tive conhecimento sobre os conceitos de reaproveitamento de alimentos e sei que nós todas estamos aprendendo muitas coisas novas… E, assim, as horas sempre passam voando e não vemos a hora da próxima aula!”, conta. As alunas se reúnem três vezes por semana e nossa reportagem visitou a Associação depois do recesso de Carnaval. As alunas estavam ávidas por aulas. Ruth Regina de Souza, irmã de Solange, vai do bairro Cinco de Maio até a Associação para assistir às aulas religiosamente – só faltou duas aulas desde novembro, quando o projeto iniciou.

A coordenadora do projeto, Simone. Imagem: Marcos Massa
A coordenadora do projeto, Simone.
Imagem: Marcos Massa

Até mesmo a caçula da turma, Érika Suellen Ferreira Telles, de apenas 11 anos, é uma das alunas mais aplicadas e felizes com o projeto. Precoce, ela faz artesanato com miçangas e lantejoulas no intervalo da escola para depois vender no Brique da Estação. Claro que a pequena adora as aulas e participa de tudo – e confessa adorar a parte das curiosidades que sempre são feitas sobre cada uma das receitas ou seus ingredientes. “Minha avó Maria fica toda orgulhosa porque participo do projeto e ainda consigo estudar e ir bem na escola”, diz a pequena.

Simone, a Coordenadora do projeto, não titubeia em responder qual foi, na opinião dela, o maior ganho das meninas com o projeto. “A autoestima, sem dúvida. Para mim, este projeto é um sonho que se torna realidade e as alunas são quem me ajudam a realizar este sonho, torná-lo possível. Nelas, percebemos um forte senso de união, amizade, carinho e vontade de aprender mais, sempre. Quer coisa melhor?”, instiga.

Sobre a Rede Parceria Social

Todos os projetos patrocinados pela Dana envolvem Segurança Alimentar e acontecem em diversas cidades do RS: Porto Alegre, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Gravataí, Caxias do Sul e Montenegro. “Apesar do tema da Segurança Alimentar ter sido mantido, é importante ressaltar que agora apoiamos projetos novos, diferentes do ano passado. Estamos alinhados com os objetivos da Rede Parceria Social, que objetiva que, após um ano, as ONGs tenham conhecimento para andar com as próprias pernas”, diz Luis Pedro Ferreira, Gerente de Comunicação Corporativa da Dana.

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