Christian Fittipaldi

Christian Fittipaldi

Alegria com o brinquedo do tio

Christian e seu kart: vocação desde a infância. Imagem: acervo família Fittipaldi

Em 1975, Christian Fittipaldi tinha só quatro anos, mas já sabia o que era um kart e tinha vontade de brincar com aquele carrinho fantástico. Um desejo que teve de controlar, porque a família Fittipaldi estava envolvida com a estréia do primeiro Fórmula 1 brasileiro. Com esse carro, Christian logicamente não competiu, mas foi o primeiro F-1 em que ele entrou para tirar uma soneca, colocado pela mãe num intervalo de teste no circuito de Paul Ricard, França. Trinta anos depois, ele tem vagas lembranças do tumulto que a empreitada do FD-01 causou nos primeiros anos de sua infância. “Eu achava que eles estavam fazendo um brinquedo pra gente grande”, revela Christian.

Mas em 1979, chegou finalmente o momento tão esperado. O pai levou-o para estrear no kartódromo de Interlagos com um veículo sob medida para suas ambições de piloto-criança. Um kart novo e muito especial, feito de outros dois: a parte traseira de um kart oficial soldado na dianteira de um menor, adaptado para ele alcançar os pedais. O motor era normal. Wilsinho acompanhava o menino com discreto orgulho e divertia-se com as precoces convicções automobilísticas do filho. Christian era fã da Ferrari e, entre os pilotos, os favoritos eram Mario Andretti, Jody Scheckter, Niki Lauda e Nélson Piquet.

O garoto sabia que o pai deixara de pilotar para construir o Fórmula 1 brasileiro e que o tio Emerson já era bicampeão do mundo de F-1. Mas naquele 1979, o tio era o “lesma” na crítica dos colegas de colégio, porque guiava o carro brasileiro.

Com o pai, no título F3000. Imagem: acervo família Fiitipaldi
Com o pai, no título F3000.
Imagem: acervo família Fiitipaldi

Antes da esperada entrada na pista com o kart, Christian ouviu algumas recomendações de Wilson e ajeitou com orgulho o pequeno macacão azul-marinho, com o logotipo Copersucar no peito. Colocou o capacete, que já era uma réplica invertida das cores do capacete do pai – fundo amarelo com gotas verdes – e foi para a estréia. Depois daquela primeira segunda-feira de dezembro de 1979, Christian Fittipaldi fez quase tudo o que um menino da sua idade e condição social faz. Acrescentou a isso a emoção da velocidade presente no gene Fittipaldi e comunicou uma decisão ao pai: ”Quero ser piloto de F-1”.

Até chegar à categoria top do automobilismo mundial, Christian seguiu o caminho das pedras do tio e do pai, sem queimar etapas. Foi campeão de kart, da Fórmula Ford e Fórmula 3 brasileira, vice na sul-americana e na F-3 inglesa. Já era um Fittipaldi respeitado nas pistas quando chegou à competitiva Fórmula 3000 européia. Sagrou-se campeão numa disputadíssima decisão contra o italiano Alessandro Zanardi, em 1991, e entrou na Fórmula 1 pronto para encarar o desafio que tinha se imposto desde os 7 anos. Estreou em 1º de março de 1992, a bordo de um Minardi-Lamborghini, no GP da África do Sul. Foi o 20º do grid e parou na 43ª das 72 voltas, por pane elétrica.

Em três temporadas na F-1, Christian Fittipaldi participou de 40 grandes prêmios. Marcou seu primeiro ponto no GP do Japão de 1992 (6o), fez três quartos lugares nas corridas da África do Sul (1993), Japão e Alemanha (1994) e foi quinto no GP de Mônaco em 1993.

Wilsinho sentiu muito cedo a fixação do filho pelo automobilismo. Lembra que estava às voltas com os acertos do F-6A na classificação do GP da Bélgica de 1979, quando recebeu um telefonema do filho reclamando as mudanças que o pai tinha prometido no seu kart – e que ainda não estavam prontas. ”Caramba!”, relembra o Tigrão: ”Como se não bastasse o Emerson ficar me cobrando mil coisas no F-1, eu tinha outro piloto na família me buzinado no ouvido.”

Wilson e Christian: uma volta no tempo e na história da família. Imagem: Marcelo Spatafora
Wilson e Christian: uma volta no tempo e na história da família.
Imagem: Marcelo Spatafora

O que Wilsinho não se deu conta é que já começava a chamar o filho de piloto. Em 1980, Christian tinha nove anos. Foi a última temporada de Emerson na F-1, mas aí ele já acompanhava todas as corridas. Lembra de ter visto o tio no pódio no terceiro lugar em Long Beach, nos Estados Unidos, e de outras passagens nas pistas. ”Eu assisti a várias corridas do Emerson no Fitti-1”, recorda Christian. ”Na minha casa só se falava de Fórmula 1 e dele, numa época em que eu não sabia a importância de ser campeão do mundo. O que recordo em detalhes foi o segundo lugar do nosso carro no GP Brasil no Rio de Janeiro, em 1978. Aí eu já tinha sete anos e lembro que foi uma grande festa. Embora fosse um segundo lugar, comecei a entender a importância de uma vitória na Fórmula 1”.

No dia 10 de novembro de 2004, aos 33 anos, Christian voltou a entrar no FD-01. Dessa vez não estava em Paul Ricard, mas em Interlagos, e não foi para tirar uma soneca, mas para acelerar o sonho que o pai tinha construído. Como aconteceu quando pilotou o primeiro kart, ouviu atento as explicações de Wilsinho. Dosou a embreagem e o acelerador, deu algumas cutucadas no giro do Cosworth V8 e foi para a pista. Voltou no tempo e na biografia de criança e de piloto. Lembrou que tinha visto o tio Emerson guiar aquele brinquedo, naquele mesmo Interlagos e sentiu na alma e no corpo a grande vitória do pai.

”Caramba!”, desabafou feliz. Era filho do cara que construiu o primeiro Fórmula 1 no Brasil, e ambos, criador e criatura, estavam ali, para proporcionar-lhe a emoção que ele não poderia ter vivido 30 anos antes.

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