Nico Nicolaiewsky

Nico Nicolaiewsky

Músico que transita por todas as artes

Nico Nicolaiewsky: um curioso, antes de tudo. Imagem: Divulgação

Nico Nicolaiewsky é, antes de qualquer coisa, um artista curioso. Descendente de judeus da Bessarábia, Nico Nicolaiewsky começou a tocar piano aos cinco anos – antes mesmo de ser alfabetizado. O músico é conhecido por seu trabalho na tragicômica peça “Tangos & Tragédias”, concebida em 1984 por ele e Hique Gomez, um sucesso de crítica e público até hoje. Ele começou a estudar piano aos 13 anos, ao ser aprovado em um teste no curso de Belas Artes da UFRGS. Anos mais tarde, em 1978, foi um dos fundadores do musical ”Saracura”, um dos mais importantes grupos de música urbana do Rio Grande do Sul no final dos anos 1970.

Nico lançou três discos solo: “Nico Nicolaiewsky” (1996), “As Sete Caras da Verdade” (2002) e ”Onde Está o Amor?” (2007). Este último, diferente dos anteriores, contém músicas mais pop. O disco foi produzido por John Ulhoa, guitarrista da banda Pato Fu. Conversar com Nico é fascinante, porque ele parece exatamente toda essa mistura de sons, estilos e mescla tudo isso com uma leveza e tranquilidade impressionantes. Mais parece um garoto curioso que desceu para brincar no recreio do Colégio Israelita e dali não mais saiu.

Como e quando a música entrou na sua vida?
Eu comecei a tocar piano aos sete anos, com uma professora do meu bairro, a Amália Malinsky, antes mesmo de ser alfabetizado – ou seja, eu sabia ler partituras antes mesmo de eu ser alfabetizado na escola! A minha mãe ganhou um piano do meu pai e colocou seus três filhos para estudar música, por isso esse meu início na formação erudita. Aos 13 anos, fui aprovado em um teste no curso de Belas Artes da UFRGS e continuei estudando piano, desta vez com a Dirce Knijnik. Ali, fiquei até os 17, quando percebi que somente a música erudita não estava mais me satisfazendo. Queria ir para um lado mais popular, tentar fazer algo com a música.

O musical Saracura em 1982. Imagem: Divulgação
O musical Saracura em 1982.
Imagem: Divulgação

Antes disso, no colégio Israelita, onde estudei, compus minha primeira música, que foi uma das três que ganhou o primeiro lugar no festival da escola naquele ano – eu estava com 15 anos, então. Tinha até um arranjo pra cello (risos)! A banda tinha uma cantora, porque eu não gostava de cantar – aliás, fui descobrir o prazer de cantar há pouco tempo, cinco ou seis anos atrás… Eu não me considerava um cantor.
Aí, no começo dos anos 80, fui procurar a minha turma, que acabou virando o “Saracura” (banda formada por Nico no piano e acordeom, Sílvio Marques nas violas, Flávio Chaminé no baixo e Gata na bateria – mais tarde, substituída por Fernando Pezão). Com a banda, eu cantava, o Chaminé também, era uma coisa teatral… Então todo mundo participava. Lançamos um disco em 1982, a banda durou quatro anos e ficou uma influência bem forte dela.

E seus pais influenciaram no seu interesse por música?
Eles não tinham a formação formal em música, mas lembro que meu pai nos levava em grandes espetáculos – lembrei agora que fomos ver o Santana no antigo estádio do Grêmio quando eu tinha uns 13 anos, depois do Woodstock, foi maravilhoso. Meu pai cantava, mas não tinha muito isso de ouvir música em casa. Essa influência veio dos meus irmãos mais velhos, que ouviam Beatles, Maria Bethânia… Mas nossos pais sempre tiveram um som bacana em casa. Lembro que meu pai, comerciante, ganhou um acordeon em troca de uma dívida, e ficou no armário até eu completar 18 anos, quando aprendi a tocá-lo.

Como funciona seu processo criativo?
Eu gosto da brincadeira e, geralmente, demoro bastante para fazer as coisas. Para mim, é fácil compor alguma coisa, eu sento ao piano e alguma coisa começa a nascer, nem que seja uma frase, que depois vira outra coisa…. É um processo bem orgânico. Eu acho que a música é uma coisa natural, que todo mundo tem. Eu tento visualizar a música que eu faço de forma que as pessoas possam participar dela, do que é música. Tenho interesse na fruição da experiência de um show, de estar ali de corpo e alma, e causar uma impressão nas pessoas, para que elas também sintam algo participando.

Você estudou com o grande maestro Hans-Joachim Köellreuter, conta um pouco sobre isso…
Ele era maravilhoso, faleceu há três anos, veio para o Brasil na época da Segunda Guerra e morava no Rio de Janeiro. Um amigo meu comentou que ele dava aulas particulares de piano. Eu tinha interesse em diversas questões de música, acabei estudando contraponto, eu já queria partir pro Bach (risos). Fiz um ano de aulas semanais com ele, sensacionais, as composições dele eram completamente diferentes, com uso de instrumentos não tradicionais. Para você ter idéia, ele me deu aula usando um método de composição do ano 1.200, era um gênio absoluto.

Depois, fomos fazer os shows do Tangos & Tragédias no Rio de Janeiro, e ele assistiu várias vezes, se apaixonou pelo espetáculo, escreveu um texto incrível sobre isso, comparando silêncios com tempos, falando sobre como o texto tinha a ver com a humanidade….

Nico Nicolaiewsky e Hique Gomez no Tangos e Tragédias. Imagem: Divulgação
Nico Nicolaiewsky e Hique Gomez no Tangos e Tragédias.
Imagem: Divulgação

Aliás, foi muito difícil seguir artista solo, tendo a imagem tão vinculada ao Tangos e Tragédias?
Foi. Eu morei no Rio de Janeiro durante dez anos, até para me desvincular um pouco do Sul, de Porto Alegre, da peça que era bastante conhecida aqui… Era aquele sucesso confortavelmente local, lá ninguém conhecia. Foi lá que começou minha carreira solo, quando lancei meu primeiro disco, “Nico Nicolaiewsky”, em 1996, com valsas e canções líricas, que virou trilha do filme “Amores Possíveis”, de Domingos de Oliveira. Eu conhecia o Aderbal Freire-Filho, já tinha feito um curso com ele, fiz a trilha de algumas peças dele – a primeira foi para “Lampião”. O Domingos, amigo dele, ouviu a trilha e quis me conhecer. Ficou apaixonado pelas músicas e, quando ‘pintou’, ele fez a peça “Amores Possíveis” e me chamou para fazer a trilha. Inicialmente, eu tocava piano ao vivo no palco. Quando vi que ele ia fazer o filme, pensei que não iria rolar, mas ele ouviu o CD que nasceu dessas trilhas e achou que tinha tudo a ver com o filme. Acabei usando todo o material do meu primeiro disco, gravei uma música só especialmente para o filme.

E seu segundo disco, de 2002, uma ópera-cômica, onde você interpreta o vilão Rodolfo, como nasceu?
Eu comecei a compor as músicas dele em 1988, 89, e desistia. Elas ficavam dois ou três meses paradas, passava o tempo, eu me reencontrava com elas, mexia de novo… Chegou uma hora que aquilo estava entalado na minha garganta, depois de todo esse tempo, e nasceu! Na edição de 2010 do Porto Alegre em Cena, estreei como diretor e fui ator da Ópera no Theatro São Pedro, o projeto voltou e estou totalmente envolvido com ele de uma forma diferente, o que é ótimo! No final da gravação do disco, gostei muito do resultado – depois de muitos cortes, ficou com 30 minutos. No teatro, ficou com 50.

E o teatro, como ele influencia em seu trabalho? E outras artes?
Muita coisa me influencia! Eu fiz aulas de teatro na escola, antes mesmo de montar a primeira banda que participou do festival aquele. Fui bailarino também, estudei com a Eva Schull, participei de espetáculos como “Um Berro Gaúcho”, mas acabei parando por causa de um problema com a coluna. Mas fiz diversos cursos de teatro, de expressão corporal com a Patrícia Stocklos, que era uma coisa que a gente já fazia no “Saracura”. Daí também surgiu essa coisa de brincar com o público do Tangos e Tragédias.

No palco, "Onde está o amor?". Imagem: Fábio Codevilla
No palco, “Onde está o amor?”.
Imagem: Fábio Codevilla

E seu disco mais recente, “Onde está o amor?” Ele é mais pop, certo? Com letras bastante melancólicas, como bem disse Clarah Averbuck no seu texto de apresentação no MySpace… 

Ele foi o disco mais tranquilo que fiz. Sem sofrimentos. Juntei algumas coisas que eu já tinha e fiz um show que não virou disco ainda, o “Música de Camelô”, em que eu tocava “Anna Julia”, dos Los Hermanos, Sandy e Júnior, Kelly Key. Esse show foi algo que fiz para mim e, sem querer, acabei descobrindo o prazer de cantar. Fiz um trabalho com uma fonoaudióloga e tentei cantar músicas absolutamente diferentes das que estava acostumado a cantar. A partir daí, pensei em fazer músicas mais fáceis, simples. Será que eu conseguiria fazer isso? Eu tinha algumas ideias, chamei uns parceiros e amigos, e entrei nesse universo pop romântico. O resultado foi o disco. Foi aí que pensei em chamar outra pessoa para produzir (o John, do Pato Fu…)

Quando você conheceu o Pato Fu? Foi durante o show que marcou os dez anos da banda, o MTV ao vivo?
Não, foi bem antes… Eu e o Hique participamos do segundo disco deles, “Tem mas acabou”, adorei eles de cara. Depois, aconteceu o show da MTV, ficamos juntos ensaiando durante um mês direto, pudemos nos conhecer melhor…

A produção do disco – muito boa, por sinal – é de John Ulhoa, do Pato Fu. Como surgiu essa parceria, e como foi trabalhar com ele?
Quando surgiu essa dúvida de quem produziria o disco, liguei para o John e a Fernanda, contei que estava fazendo algo bem pop, e propus alguma parceria de qualquer tipo. Começamos a fazer coisas. No final das contas, acabei indo pra Belo Horizonte e produzimos o disco lá, foi muito bacana. Estou na maior expectativa para este show dos Concertos Dana também porque será junto com a Fernanda, eles são pessoas muito bacanas e admiro essa veia pop da banda e dela cantando solo também.

Quais artistas você cita como influência?
Sempre cito o Ástor Piazzolla, o Cláudio Levitan, a fase antiga e boa do Roberto Carlos, muita coisa de cinema e teatro. Até as versões de Auto Tune que vejo no YouTube me influenciam, são muito bem feitas! (risos).

Quais são os cinco discos que você mais escuta atualmente?
Beach Boys – Pet Sounds
The Beatles – Abbey Road
Pato Fu – Daqui pro futuro
Manu Chao – Os dois primeiros discos dele.

Para concluir, onde está o amor, Nico?
Nas pequenas coisas da vida.

 

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