Chiquinha

Chiquinha

Engraçada, irreverente e politicamente incorreta por opção

Fabiane Bento, mais conhecida como Chiquinha, tem 26 anos e muita história pra contar. Pudera – aos 20 anos, a cartunista já estava trabalhando dentro da redação da revista Mad e, hoje, publica na Folha de São Paulo, ao lado de alguns de seus ídolos juvenis como Allan Sieber, Laerte e Adão Iturrusgarai. Ainda em 2010, ela se prepara para um novo desafio: lançar seu primeiro livro. Confira abaixo o bate-papo com a “guria” que não teve medo de desbravar um mercado notadamente masculino.

Seu humor tem uma marca registrada: a de não ter medo de nada. Qualquer “tosquice” vira piada. Li que seus irmãos mais velhos foram uma grande influência pra ti, é verdade?
Bom, meus pais tinham decidido parar de ter filhos porque já tinham meu irmão e minha irmã, mas, em 1984, em uma falha do DIU eu apareci (risos). Os dois já eram bem mais velhos, pré-adolescentes, minha irmã mais velha tinha super influências do universo punk, por isso fui proibida de assistir Xuxa, ouvir os discos da Mara Maravilha. Nem o Bozo escapava. Escutava Garotos Podres, Olho Seco com ela, essas coisas. Ela era meu ídolo, e por influência., acabei começando a ler parte dos autores de quadrinhos que se tornaram a base pra tentar criar algo meu. Lia “Chiclete com Banana”, as revistas da Circo, Laerte, Animal – feio, forte e formal! -, as revistas da Vecchi. Aprendi a ler muito cedo, na época era o auge das editoras independentes e pululavam zines pra todos os lados. Claro que lia os gibis da Turma da Mônica, da Disney, aqueles Karl Barks e tal. Enfim. Lembro do que creio ter sido um dos meus primeiros ”cartuns” se é que podia ser chamado assim: foi assistindo ao filme do Kiss, nossa, eu, com meus 6, 7 anos fiquei bem impressionada. Acho que minha irmã tem isso guardado.

Fabiane Bento - ou Chiquinha. Imagem: Luiz Pellizari
Fabiane Bento – ou Chiquinha.
Imagem: Luiz Pellizar

Você cursou jornalismo. Isso te influenciou de alguma forma?
Sempre gostei de escrever mas nunca havia pensado em viver de desenho, de ilustração ou cartum, não achava que poderia se tornar uma profissão. Então fui cursar jornalismo, caminho que muitos seguem por parecer mais seguro do que tentar a sorte com um trabalho independente. Meu interesse inicial na área era a fotografia, e claro, redação (jornal e rádio). Mas no fim das contas, acabava ilustrando algumas provas, trabalhos. Gosto bastante de escrever, e acho que isso é uma herança da faculdade de jornalismo também, é só dar uma olhada em alguns quadrinhos. As vezes escrevo tanto que quando me dou conta sobou um espacinho de nada reservado pro desenho (risos)!

E quando você começou a pensar em desenhar?
Sempre desenhei compulsivamente, aquela coisa do escape mesmo. Uma vez o Otto Guerra (cineasta gaúcho que trabalha com animação) disse que meu desenho parecia o do Ota, sim, o Otacilio d’ Assunção Barros, editor da Mad e que foi dos meus ídolos cartunísticos da infância. Eles iam participar juntos de um evento sobre animação no Rio de Janeiro. O Otto levou meu desenho até o Ota e entregou. Resumindo: fui convidada pra trabalhar na Mad. Aprendi muito nessa época, coisas sobre diagramação, edição, arte final… Mas voltei para terminar a faculdade e ficar por Porto Alegre mesmo. Foi nessa ocaisão que publiquei minnha primeira tira, em 2005, no Jornal do Brasil (RJ).

E seu blog, como nasceu? 
Sabe como é a pessoa, eu tinha preconceito com blog, achava, na época, que era uma coisa de “querido diário” (risos), enfim, achava otário. Conheci o Zimbres e o Allan (Sieber) aos 14 anos numa oficina de quadrinhos que eles estavam ministrando, da qual fugi por achar entediante. Os reencontrei mutos anos depois, foi aí que o Zimbres gostou do meu desenho, e ele próprio criou uma conta. Nossa, depois dessa não tive como renegar a internet. O editor da Animal, criador da Vida Boa me fazendo um blog? Segui em frente. Depois fui pro Insanus, depois Uol, e tou lá até hoje.

Twitter em pauta
Twitter em pauta

E como surgem tuas ideias? Alguns ilustradores e cartunistas reclamam do sofrimento do processo criativo deles…
Não compartilho muito desse sofrimento, não. Carrego sempre papel e caneta comigo, as ideias surgem nas horas mais inusitadas, quando estou fazendo alguma coisa em casa, tomando banho, lavando louça… Não tem muita reflexão, eu pego e faço – e sempre o texto nasce antes do desenho.

O que te influencia?
Tudo! Fatores externos, coisas que vejo na rua que eu gosto, histórias e estereótipos…

E como começou teu trabalho profissional como cartunista?
Olha, eu estive um tempo no Jornal do Comércio, mas fazia mais ilustrações, infográficos e, eventualmente, alguma matéria pro caderno de cultura, mas eram microcoisas. Na época passei por um peneirão de blogs, esollhidos por editores da Folha de S.Paulo, que se esolhidos fariam parte do time de cartunistas do jornal. Passei por uma peneira braba e desde então faço a contracapa do Folhateen ao lado do Laerte, Adão Iturrasgarai e Allan Sieber. Eu tinha 22 anos quando estreei na Folha, mas como disse antes, já tinha publicado no Jornal do Brasil. Não sei delimitar uma linha do tempo que deixe claro quando foi que comecei de verdade, como profissional.

E isso abriu portas pra você publicar em outros lugares?
Sem dúvida. Não só a Folha, mas acredito que foi todo o conjunto do meu trabalho, na internet e em outras revistas que abriram essas portas. De 2006 a 2008 trabalhei para a Sexy Premium, com o personagem Asdrúbal Equino, o cavalo ator pornô. Publiquei a elefoa na Zero Hora, fiz quadrinhos pro Diário de Pernambuco por 3 anos. Fora algumas revistas que trabalho com certa regularidade e freelas dos mais variados. Não sei dizer, o que, nos dias de hoje gera mais visibilidade, a internet meio que matou o conceito de publicação, mas seguimos no romantismo de ter sido aceito, escolhido.

A Elefoa Cor-de-Rosa. Imagem: Divulgação
A Elefoa Cor-de-Rosa.
Imagem: Divulgação

Fala mais sobre a Elefoa…
Sempre adorei elefantes, até acompanho o trabalho da The David Sheldrick Wildlife Trust. Ok, mas a Elefoa Cor-de-Rosa, linda foazinha, é inspirada na Cabíria, personagem do “Noites de Cabíria”, um dos filmes que mais amo na vida. Ela é uma romântica, aquela que sempre se dá mal mas que segue acreditando na possibilidade de uma redenção. A Elefoa é assim, um anjo com as asas na lama. Temos também o Consultório Sentimental da Elefoa Cor-de- Rosa. Recebemos muitas cartas por lá, Eu, Foa e Gisbelle . Pena que tá dificil arrumarmos tempos de responder/desenhar todas!

Qual a melhor parte do seu trabalho? E a pior?
Gosto de poder trabalhar em casa, com algo que é meu mesmo, de não ter colegas mala ou chefes do mal, de não ser escravizada diretamente por terceiros em prol de uma empresa, o que eu faço também é meu, mesmo que seja feitos pra outros. Gosto de ter liberdade pra desenhar ouvindo meu sozninho, tranquila, com meus gatos. A pior, acho que é, por conta disso acabar me desorganizando com horários. Tirar um dia de folga e no outro dia ter que trabalhar das 7h da manhã às 9h da noite!

E como você trabalha? Desenha no papel, no computador?
Desenho no papel, sempre. Parece redundante, mas em tempo de tablets e tecnologias ( sim, também não desenho em pedra, nem em madeira) é bom frisar. Costumo levar minha agenda pra todos os lugares e anotar esboços de ideias. Rascunho em qualquer lugar, até porque cousas aparecem durante o dia, no ônibus, na rua… Depois, desenho e escaneio para colorir no computador.

Seus cartuns têm muitas citações à música. O que te influencia, o que você ouve?
Ouço muita música country, doowoop, jazz etc. Burt Bacharach, Roberto Carlos, boleros, Dolores Duran, Roy Orbinson, Richard Cheese, até um Pepininho di Capri (risos!). Tenho uma série de quadrinhos relacionado ao universo musical, meio que funcionam como uma releitura do formato clipe, só que em formato impresso, o Cantando com Chiquinha! Cinema é outra grande influencia, ainda falando em música, as trilhas incríveis do Nino Rota, Michel Legrand, por exemplo. O que me toca mesmo são os clássicos, em sua maioria, e os mais populares: Fellini, Bergman,Truffaut, Godard, Pasolini, clássicos dos clássicos. Até fiz um quadrinho esses dias sobre cinéfilos suas vastas teorias e discussões. Adoro esses tipos humanos!

E quais seus cartunistas favoritos atualmente?
São muitos, e a gente sempre fica com os antigos em mente, ao mesmo tempo que conhece novos! Ontem me peguei redescobrindo uma influência antiga, fiquei lendo o livrito do Gato do Fat Freddy na cama. Ha. Mas acompanho o trabalho de várias meninas, a Miss Gally, Julie Doucet, Lili Carré, Marjani Satrapi… também o trabalho do Rafa Coutinho, que acho muito legal, apesar de seguir outra linha de HQ, meu amigo Edu Medereiros, Daniel Lafayette, e, claro, sempre os amigos e colegas Adão e Allan Sieber, sem falar nos canones, Angeli, Laerte, agora com o Manual do Minotauro etc.

E quais teus próximos projetos?
Estou montando um pocket book da Elefoa, que sairá pela editora Barba Negra. Vai ser uma compilação com coisas antigas e novas da Elefoa. Outros planos ainda sob sigilo (risinhos!).

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