Bruno 9li

Bruno 9li

De pichador a grafiteiro, das intervenções de madrugada para a luz da manhã, do protesto alternativo ao status de arte.

"Renova Eterno”, um dos trabalhos expostos na Anno Domini. Imagem: Reprodução

Nos últimos anos, Bruno Novelli, a.k.a. ”9li”, tem caminhando pelas ruas de Porto Alegre – e, agora, São Paulo – com seu canetão preto desenhando em paredes e intervindo em pontos de mídia urbana – modelos que ilustram campanhas publicitárias ganham olhos pretos, animais híbridos surgem em esquinas e frases aparecem em locais inusitados da cidade. Influenciado pela estética do bairro industrial onde morava em Porto Alegre, seus desenhos são, também, influenciados pela Art Nouveau e por imagens alquímicas. Atuante do coletivo Upgrade do Macaco, Bruno tem explorado a colagem de pinturas em papel de grande formato pelas ruas. 9li também produz vídeos e participa de performances. Estudou na The School of Visual Arts em New York City onde viveu por dois anos. Como artista plástico, tem realizado exposições na Galeria Adesivo, em Porto Alegre, e na Choque Cultural, em São Paulo. Hoje mora e trabalha em São Paulo.
No ano passado, Bruno 9li viajou para San Jose na Califórnia para sua primeira mostra individual nos Estados Unidos. A exposição “Mysterium Tremendum” aconteceu na Anno Domini Gallery, e continha 30 novos desenhos de Bruno.

Como foi a sua exposição na Anno Domini Gallery?
Foi surpreendente. A galeria é muito profissional, havia muita gente na abertura, fiz muitos amigos e vendi muitos quadros. Não tinha idéia da proporção que meu trabalho tomou no exterior – muitas pessoas já conheciam meus desenhos.

Essa foi sua primeira exposição individual, certo? Você já teve outros trabalhos publicados em revistas estrangeiras, e exposição também fora do Brasil… Você acha que os artistas têm mais reconhecimento lá fora do que aqui?
Essa foi a minha primeira individual nos EUA depois de coletivas na Itália, Espanha e Bélgica. Quanto ao reconhecimento, creio que a diferença é que, em lugares como os Estados Unidos e outros países da Europa, existe uma cultura de investimento em arte muito mais forte. Tenho colecionadores no Brasil mas, com certeza, o mercado lá fora é muito maior.

Preparando a exposição nos EUA. Imagem: Brian Eder
Preparando a exposição nos EUA.
Imagem: Brian Eder

O que você cita como principais influências das suas obras – música, cinema, artistas plásticos? 
O que me inspira é o mistério que está oculto em mim. São imagens, experiências e sons que, por algum motivo, me levam para outro tempo, outra atmosfera.

Quando surgiu o coletivo de arte Upgrade do Macaco? Quantos artistas participam?
É de 2003, mas antes já rolavam trabalhos não organizados. Não é um grupo fechado. Quem está envolvido nos projetos faz parte dele. Hoje, há o projeto da revista e de uma produção em vídeo de média-metragem. É uma ficção, mas seria também uma poesia visual. Seria exibido como uma vídeo-instalação. O roteiro fala sobre alquimia, pós-modernismo e a situação do homem num possível futuro.

Muitos coletivos de arte têm um forte caráter político embutido. O Upgrade do Macaco se insere em alguma vertente política ou mesmo ativista?
Ele tem uma preocupação social. Só em trabalhar na rua, colocar o trabalho na rua, com o aspecto do gratuito, já é social. Lemos autores que trabalham isso. Sabemos que o caminho não é dar soco da ponta da faca ou apenas se jogar para o lado do fluxo do capitalismo. Mas não somos radicais.

O coletivo atua tanto em ruas quanto em galerias e espaços de cultura. Qual é o melhor ambiente? A arte muda dependendo do ambiente ou do público? Ou ela se sobressai independentemente do local em que está exposta?
Tem uma mensagem híbrida. Mas a arte não tende a mudar conforme o lugar. As pinturas são feitas nos mesmos materiais, como o papel. Não temos a preocupação de eternizar as coisas. A exposição do Instituto Goethe (em Porto Alegre) que íamos montando enquanto ela era exibida, ao mesmo tempo, é mais ou menos como na rua, que fazemos enquanto as pessoas caminham e questionam ou xingam dizendo que estamos fazendo vandalismo.

Como é ver um mural ou uma gravura pichada por outros grafiteiros ou afetada por cartazes de shows?
Não me importo. O que quero muito é, depois de colocar na rua, ao menos registrar, tirar fotografias. Depois disso, está entregue ao caos.

E quais seus planos, daqui pra frente?
Estou com agenda de exposições cheia até outubro de 2008. A próxima individual será em Barcelona, com data para setembro desse ano e, ano que vem, estarei nos Estados Unidos novamente. Lanço um livro pela Rojo em agosto, também em Barcelona, e sigo desenhando incansavelmente todos os dias.

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