Persépolis

Persépolis

A (difícil) arte de crescer

Marjane Satrapi em seu estúdio, que fica em Paris Imagem: Divulgação

Marjane Satrapi pertence à mesma linhagem de Anne Frank e Zlata Filipović – meninas que cresceram em países cuja situação política opressora mudou suas vidas. Anne Frank tornou-se famosa por escrever em seu diário os horrores da perseguição aos judeus na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial. Zlata lançou, em 1993, um livro contendo quatro anos de registros diários falando sobre seu cotidiano em Sarajevo, ”O diário de Zlata”.

Marjane, por sua vez, registrou sua autobiografia em quadrinhos, que viriam a se tornar os quatro volumes de “Persépolis” (lançados, no Brasil, pela Companhia das Letras, reunidos em um livro só), que também viraria longa-metragem de animação – que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro representando a França, em 2007.

Marjane Satrapi era apenas uma criança quando a revolução islâmica derrubou o xá do Irã, em 1979. Bisneta do antigo rei da Pérsia, ela cresceu em uma família de esquerda, moderna e ocidentalizada, e estudou numa escola francesa e laica. Com a chegada dos extremistas ao poder, as meninas foram obrigadas a usar o véu na escola e estudar em classes separadas dos meninos. Persépolis foi lançado na França em 2001, por uma pequena editora independente. Tornou-se um fenômeno de crítica e público. Não é de se espantar.

O livro conta uma história complicada de forma simples, com o bônus dos dilemas e alegrias da infância e adolescência da protagonista. Ao mesmo tempo em que cresceu em uma família moderna e politizada, ela também foi criada com a influência da tradição persa. Nascida em 1969, ela tinha 10 anos quando aconteceu a derrubada do xá, em 1979, em uma revolução popular que se converteu em ditadura islâmica. Marjane foi, então, enviada pelos pais para a Áustria, aos 14 anos.

Capa do livro. Imagem: Reprodução
Capa do livro.
Imagem: Reprodução

Lá, descobriu o mundo ocidental e enfrentou inúmeras dificuldades de adaptação – especialmente para uma adolescente. Seus amigos namoravam, usavam drogas, iam para festas, cultuavam o punk e Marjane, de repente, se viu lidando com uma liberdade com a qual não estava acostumada.

Em determinado momento do livro, a adolescente Marjane diz: “Se eles soubessem… se apenas soubesse que enquanto eles eram bombardeados diariamente, a filha deles se maquiava como uma punk, fumava baseados para causar boa impressão… não diriam mais que eu era a filha dos seus sonhos”. Marjane chegou até mesmo a morar na rua, mas tratou todas essas experiências com um humor agridoce que, de tão terno, chega a ser triste. Em várias entrevistas, a autora contou que os pais só ficaram sabendo do que ela passou em Viena depois que leram o livro.

Ela acabou voltando para o Irã, onde estudou Belas Artes, casou-se e divorciou-se, para depois estabelecer-se na França como ilustradora. As ilustrações, em preto-e-branco, realçam a história política rebuscada do Irã e trazem para nós, ocidentais, um pouco sobre o mundo daquele país, tão diferente do nosso. O livro é em preto e branco mas, recheado com as vivências e sensibilidade de Marjane, enche-se de cores e riqueza.

Em ‘Persépolis’, o pop encontra o épico, o oriente toca o ocidente, o humor se infiltra no drama – e o Irã parece muito mais próximo do que poderíamos suspeitar.

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